quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O Natal d@s desparecid@s (1973-2013)

No Natal de 1973, há exatos 40 anos, desaparecia Maurício Grabois, meu tio avô, nas selvas do Araguaia.

Ainda hoje muita gente "simplesmente" desaparece no Brasil. Não precisa ser comunista (nem precisava), basta ser pobre, negra, indígena, camponesa, ribeirinha, favelada e ser contradição viva com os avanços desse sistema centrado no capital. Tudo o que é obstáculo a esse tipo de progresso, seja humano ou não, é de alguma forma aniquilado. A tática do "desaparecimento" ainda é muito comum. Trata-se de algo terrível. Quem desaparece não está vivo nem morto, é um espectro, um fantasma.

O estatuto do "desaparecido" é um "sem-estatuto", mas não é algo solto no ar. Estar desaparecido no Brasil tem a ver diretamente com a ação do Estado. Trata-se de um acontecimento político: o Estado "resolve" intervir de forma brutal sobre a vida das pessoas, dando-lhes não a morte, não o encarceramento, mas o "apagamento da memória". Hoje, nossa atenção para o passado ainda tão atual é fundamental. A Ditadura não é uma página virada na História, seu espectro continua a nos assombrar. A violência do Estado atua, portanto, pelo menos de duas formas: com a assombração de um passado ainda não trazido plenamente "à luz do dia" e com ações semelhantes às desse passado (e ainda piores e em dimensões ainda maiores) de "sumiço", tortura e outras técnicas perversas de controle.

Compartilho uma vez mais o curto vídeo da antiga campanha da OAB/RJ pela Memória e pela Verdade:



Compartilho também esse relato incrível dramatizado por uma atriz (que agora não sei o nome) convidada pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva". O relato conta um pouco da história de vida da Helenira Rezende, também desaparecida durante a Guerrilha do Araguaia.


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O Natal tem afeto? Os sentidos do Natal em disputa

Quando me converti ao cristianismo, adotei toda uma dogmática que me fazia crer-me não o detentor da verdade única sobre Jesus, mas pertencente a esta verdade única e absoluta. Hoje, me sinto cada vez mais aprofundado no que se entende por “caminhada da fé cristã”, mas esse aprofundamento se dá através de uma série de deslocamentos em relação a concepções fechadas da fé, sejam elas tradicionais ou não.

Aquela frase provocativa que aprendi há alguns anos na igreja batista hoje ecoa mais forte do que nunca: os cristãos pertencem a Deus, mas Deus não pertence aos cristãos.

Assim, o sentido do Natal também não é um só e não pertence à igreja A ou B, ou mesmo apenas ao universo das religiões cristãs. Diversas vozes (inclusive dentro dos cristianismos) têm apontado outros afetos e outros sentidos para o Natal, que não reduzem o nascimento de Jesus a um acontecimento apenas salvacionista (no sentido da redenção das almas das pessoas da danação eterna na vida pós-morte, etc.).

Os sentidos do Natal são muitos e estão em disputa. Não sou dono de nenhum deles, mas vivo tendo que escolher entre o que me é oferecido (ou imposto) como verdade única do Natal. Olhando com desconfiança para a lógica do endividamento da nossa subjetividade apresentado nas típicas luzes do Natal das lojas e igrejas, é possível elaborar outros natais, outros sentidos e deixar-se tocar por outros afetos, que tem muito mais a ver com dinâmicas coletivas de vida, que não se reduzem (mas sem excluí-lo) ao meio familiar.

Algumas vozes me tocaram de uma forma potente nesse Natal e em outros... Compartilho, muito rapidamente, três vozes que estavam por escrito, mas são só uma pequena expressão do que rola por aí, mundo afora.

Outras vozes:

“Ele foi perseguido pela Polícia, pela Justiça e pela Mídia do seu tempo. Hoje é aclamado da boca pra fora por forças similares contemporâneas. Amanhã, meia-noite, geral na festa quase-global do seu níver. Mas vale lembrar: foi tachado de radical, de vândalo, foi espancado, esculachado, torturado e morto... pelos poderes instituídos, embora só falasse de afeto. Logo, amanhã, reflita sobre isso: há milênios o poder instituído castiga os mensageiros do afeto e os que tentam propagar uma justiça mais ampla. E hoje, em tantos Gólgotas, ainda exibem castigos exemplares para aterrorizar a população.” (Marcus Galiña, no Facebook)

“A alegria da comemoração do nascimento do Filho de Deus entre os homens não deveria ser desprovida também da memória do seu contexto. O menino Jesus foi, sobretudo, um sobrevivente. [...] Nessa história Jesus se identifica com tantas crianças cuja natalidade beira o risco. [...] Jesus não simplesmente nasce, seu nascimento também evidencia uma negligência, uma desumanidade, um mundo classista, violento e arriscado. (Ronilso Pacheco, no Blog do Fale)

“Nesse Natal não quero me deixar enganar com as reciprocidades superficiais nem vou arrastar gestos de reconciliação pelo fundo áspero do desespero dos meus dias. Quero uma esperança maior que a violência. Quero um Natal imperceptível. Um Natal desinteressante. Um Natal vazio... como vazia é aquela alguma noite em que nascem crianças imperceptíveis e desinteressantes e que podem fazer os pobres sonhar com Paz na Terra e Boa Vontade. Meu Deus, me ajuda a ver!” (Nancy Cardoso, na Novos Diálogos)


Um abraço em tod@s, com paz, justiça e dignidade, nesse e nos próximos natais!

domingo, 24 de novembro de 2013

Abolição das brancas verdades, afirmação das afroperspectivas

Texto que publiquei na Novos Diálogos no último dia 20.


Somente de um lugar centrado na experiência própria dos povos africanos é possível, no contexto social do supremacismo branco, perceber a brancura como etnicidade específica, pois a sociedade a apresenta como norma universal, pano de fundo, identidade subjacente e universal que não precisa se articular.
Elisa Larkim Nascimento

Se não sou negro por raça, posso ser negro por opção política.
Leonardo Boff
Os olhares embranquecidos sobre o acontecimento histórico “Abolição da Escravatura” em 1888 tendem a invisibilizar o que de fato acontece no Brasil no processo do “pós-Abolição”. Aboliu-se um sistema legal de opressão, mas não se mexeu radicalmente nem nas estruturas sociais, nem nas formas de pensar sobre elas. Quero me deter no segundo ponto.

Abolir a verdade já muito embranquecida do Brasil não é simplesmente jogar no lixo ou ignorar suas formulações, seus discursos. Estes sempre voltam com força: “Por que não um dia da Consciência Branca?”, “Os próprios africanos venderam seus compatriotas como escravos para o Brasil, a culpa não é do europeu ou do filho de europeu brasileiro!”, “Cotas raciais é racismo inverso!”, “A Escravidão já foi há muito tempo, agora todo mundo já disputa em condições de igualdade!”, “O Brasil é um país mestiço, isso de racismo não tá com nada!”, e por aí vai. Abolir as brancas verdades sobre o Brasil é colocá-las em afroperspectiva.

Todas as falas acima pretendem aparecer como verdades universais, mas são feitas a partir de um lugar inconfessado e inconfessável que é o da brancura. Essas falas negam o racismo, negam a “obra da escravidão”, negam a história do tráfico de escravizados no capitalismo. São falas inteligentes, pensadas, arrojadas, estudadas, ou pelo menos, assim se pretendem. Dentre as muitas teses, pesquisas, estudos sobre o tráfico de escravizados, há pelo menos uma, de fato, que coloca nos próprios Estados africanos da época uma parcela importante de culpa em relação à captura e exportação de pessoas (MOORE, 2012). Mas porque dentre tantas teses, apenas essa aparece como boa, válida, plausível, verdadeira, etc. O que essa escolha de teses – que não aparece como escolha, mas como a própria verdade – quer legitimar? Qual o efeito que essa branca verdade causa?

Outro exemplo, o caso da mestiçagem e da miscigenação. Amplos estudos sobre o assunto, diversas concepções estão em disputa quando o assunto é “Brasil, país mestiço”. Por que escolher a ideia segundo a qual “no Brasil as distinções raciais não são claras o bastante” para fazer valer políticas públicas de ação afirmativa para negros (pretos e pardos) e indígenas? Por que teimar em negar que o racismo continua acontecendo veladamente nas relações interpessoais e nas instituições do país? Por que a insistência em dizer que o problema do Brasil é social e não racial?

Saber-se pertencente a uma sociedade racista é o primeiro passo para combater o racismo em toda e qualquer forma sob a qual ele apareça. Racismo em mim e no outro, nas pessoas e nas instituições. Colocar a história e a atualidade do Brasil em afroperspectiva nos conduz a uma percepção crítica do nosso próprio pertencimento. Não é preciso se identificar (ou ser identificado) diretamente como afrodescendente para assumir esse lugar. Não se trata de reafirmar essências dadas de uma vez por todas. A perspectiva africana, afro-brasileira, ou da Diáspora Africana permite uma crítica de todos os nossos pertencimentos, permite uma crítica daquilo que é hegemônico no nosso modo de pensar, agir, sentir. Colocar as brancas verdades sobre o Brasil em afroperspectiva permite um novo olhar sobre a contribuição de indígenas, negros, imigrantes europeus, colonizadores, latino-americanos etc. para o pensamento, a cultura, as artes, o desenvolvimento nacional etc. Isto porque, dentre todos os lugares, a África sempre teve o mais baixo na escala de valores em termos de cultura, pensamento e desenvolvimento. Esse lugar não é da natureza da África, não é por causa de nenhuma maldição. A África foi (e ainda é) explorada por outros povos, e com o advento do capitalismo, sobretudo pelos povos europeus, foi colocada por estes num não-lugar: sem cultura, sem história, sem religião, sem língua etc. Esse olhar não é dado, é construído.

Não se trata de culpabilizar ninguém, tampouco de desculpar quem quer que seja, trata-se de responsabilizar a nós mesmos, sociedades, Estados, pessoas, organizações, instituições, educadoras/es, militantes, intelectuais, escritoras/es, teólogas/es, pastoras/es etc. pela tarefa de repensar nossos lugares de fala e ação. Nossas práticas reproduzem as relações de poder hegemônicas?

E nossa teologia e nossa “fé cristã”, também partem de uma brancura inconfessada? Hoje, cumpre reconhecer que o evangelicalismo traz consigo um eurocentrismo e uma europeidade subjacentes. Por que o pensamento de “teólogos pop”, como o dos europeus John Stott e C.S. Lewis, aparece como reunidor dos grandes temas universais da espiritualidade e da vida do cristão enquanto as formulações das teologias latino-americanas (por exemplo, Gustavo Gutiérrez), das teologias feministas ou queer (por exemplo, Marcella Althaus-Reid) e das teologias negras (por exemplo, James Cone) são relegadas a segundo plano?

Pastor Marco Davi de Oliveira é um dos que nos convida para outras perspectivas sobre a Bíblia e nossa relação com a fé:
Logo, se faz necessário desconstruirmos os paradigmas que produziram as categorias de pensamentos que nos escravizam. É tempo de olharmos a bíblia pelo lado avesso. Ou seja, olhá-la a partir dos que são oprimidos pela exegese e hermenêutica bíblicas. Olhá-la a partir da perspectiva de que toda a história bíblica é uma história de negros que viviam no entroncamento da África com a Ásia. (OLIVEIRA, 2011)
Hoje, mais do que nunca, é preciso abolir as brancas verdades, inclusive na agenda e nas articulações e agenciamentos feitos nas igrejas. O direito à memória, à história, a construção de uma “consciência negra”, os processos de reconhecimento e valorização da cultura negra ou afro-brasileira são também ações afirmativas, mas não podem mais se dar a partir da ideia de “tolerância e respeito” – que ainda pressupõe um tolerante (superior) e um tolerado (inferior) –; é preciso na verdade se colocar num outro lugar. Esse lugar é provocado pela própria luta do movimento negro, das mulheres negras e de outras atrizes e atores sociais. No campo específico da fé e da teologia, é possível articular hoje uma “teologia afroperspectivista” ou uma “teologia da ação afirmativa”?

Referências:

BOFF, Leonardo. A voz do arco-íris. Brasília: Letraviva, 2000.
MOORE, C. Racismo & Sociedade: novas bases epistemológicas para entender o racismo. 2ª ed. Belo Horizonte: Nandyala, 2012.
NASCIMENTO, E. L. O olhar afrocentrado: introdução a uma abordagem polêmica. In: NASCIMENTO, E. L. (org.).Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. São Paulo: Selo Negro, 2009, p. 181-196.
OLIVEIRA, M. D. Postura negra diante da leitura da Bíblia. Novos Diálogos, 2011.http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=401.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

11 de setembro: 40 anos


Tenho este blog desde 2007 e reparei que até hoje nunca tinha feito nenhuma postagem sobre o 11 de setembro chileno. 


11 de setembro de 1973. Já se vão 40 anos do Golpe militar que depôs Salvador Allende da Presidência do Chile.


Um dos livros que mais me marcou na adolescência foi "A Casa dos Espíritos" de Isabel Allende, onde se conta a saga de gerações de uma família, que atravessa inclusive a ditadura civil-militar chilena. Da mesma autora li também "De amor e de sombra", que também narra cenas bem fortes da ditadura chilena. Nos livros, sente-se a dor das personagens, com seus sonhos esmagados, corpos mutilados, expectativas equivocadas, seus dilemas ético-políticos, etc.



Logo tornei-me "próximo" do Chile, compartilhando uma cumplicidade com esse país, por causa de sua história de perseguições e mortes, narradas com tanta paixão por Isabel... Mesmo sem jamais ter ido ao Chile, sinto-me íntimo, tenho uma relação afetiva inexplicável com aquela terra.



Mais recentemente, conversando com jovens chilenos e chilenas, confirmei aquela ideia de que no Chile as pessoas são bastante divididas entre pró-Allende e pró-Pinochet. O filme "Machuca" narra bem a situação vivida no pré-golpe do Chile de 1973, mostrando bem o "maniqueísmo" vivido naquela época e que parece persistir até hoje.



 Pra fechar essa postagem bastante improvisada, cito meu amigo Isaac Palma:

Quem Narra a história é sempre quem tem mais poder. A grande tragédia, é o 11 de Setembro americano, aquele das torres gemêas, do inicio da guerra ao terror, das invasões aos países árabes(que ao que parece está longe de terminar). Mas existem outros 11 de setembro, existe um outro, apoiado diretamente pelos americanos, que simboliza a violência pela qual a América Latina passou, violência essa que matou bem mais que um atentado, violência imperialista de subjugar, de retroceder, de aniquilar, de desaparecer. Todos nós Latino Americanos, vitimas de Regimes Militares, morremos junto com o então presidente chileno Salvador Allende naquele 11 de Setembro, morremos das mortes violentas do poder. Choramos as dores daqueles que sufocados, pela opressão tentaram lutar. Somos desaparecidos, da luta de outros, e lutamos para que possamos aparecer, e Narrar nossas histórias. 11 de Setembro e toda America Latina chora(ou deveria). Salvador Allende vive, nas nossas lutas continuas, e não devemos esquecer, para que nunca mais aconteça.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Demorô formá o bonde do rastafári!

Letra profética, direto do túnel do tempo!

Se liga nesse trecho aqui:


"Será que não percebe / Será que não está vendo / A realidade / Do que está acontecendo / Se ainda não acredita amigo / Eu não insisto mais / O exemplo está aí / E só ver lá nos jornais / As fotos são bem claras / Nas primeiras páginas / Infelizmente jovens / Estirados pelas balas / Por isso aproveite / Essa hora de lazer / Pra continuar o baile / Só depende de você / Por quê?"



#jovensdemaispramorrer

Se liga na Campanha da Rede Fale-RJ:
www.facebook.com/jovensdemaispramorrer 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Evangelho das vadias: cadê o Amarildo?

por Nancy Cardoso Pereira

Eu sou daquela religião que espera pelo corpo com o corpo: ressuscitado! A espera se move pela paixão por tudo que é humano... tanta e toda capaz de enfrentar a morte: a cruz.
Aborreço os senhores - horrorizai-vos – que querem travestir a fé de Jesus numa expressão obediente de louvores estéreis: não louvo pra que a “som livre” toque – deslouvado seja! Nem me deixo convencer pelo balbucio do senso comum da bondade: eu quero mais! Bem aventuradas as desobedientes porque elas quebram os espelhos de quem manipula deuses, ofertas & santidade.
Minha religião é aquela entre outras de Jesus que goza com o corpo vivo, morre com o corpo solidário de paixão e ressuscita na espera ativa das mulheres que não admitem que a morte diga a última palavra: nem não!
Não esperamos que nos deixem subir no altar, galgar posições e traficar influência como padres, pastores, profetas, ministros, bispos, arcebispos, cardeais, vigários & teólogos a granel. Esperamos a ressurreição do corpo com a menina dos olhos ardida de desejo, gás de pimenta e sono.
Nossa tradição religiosa vem das mulheres que ressuscitaram Jesus com sua espera audaciosa e persistente: “onde colocaram o corpo de quem eu amo?” - elas perguntavam com o zelo de quem cultiva um orgasmo, arrisca um jardim, desenha um doce, faz o salário chegar no fim do mês, apoia a amiga que vai abortar, organiza uma greve, alimenta a fome com a vontade de comer e lava as roupas ciente de que o que suja o mundo é o medo, a desigualdade e a opressão.
Onde colocaram o corpo de quem eu amo? - diz Madalena. 

Porque levaram embora o corpo do meu Senhor, 
e não sei onde O colocaram. (Evangelho de João 20.13)

Repetiam o gesto antigo de amante e mãe, companheira e irmã que insiste em saber:
 me digam onde colocaram o corpo e eu cuidarei dele... (Evangelho de João 20.15) 


Reivindicam o corpo porque denunciam as muitas mortes e já não aceitam um deus que exige sacrifício, que justifica a injustiça ou atenua o desespero. Elas perguntam pelo corpo do homem morto e se atrevem com perfumes, os seios a mostra e panos, bandeiras e cartazes que desnudam toda pretensão das virtuosas.
Herdamos o gesto des-esperado de Rispa que teve dois filhos mortos pela disputa pelo poder nos tempos do rei Davi... que uma história assim não se esquece! Aquele-no-governo disputava o poder na ponta da espada, na lógica do medo e traição e entregou para mercenários os 2 filhos de Rispa e outros 5 filhos de outra mulher. Os sete enforcados em praça pública, expostos como ação de polícia pacificadora... mas ninguém se atrevia a baixar os corpos, a assumir a morte, a dizer o que aconteceu.
E a mulher antes de todas nós foi lá e fez:
Então Rispa, filha de Aiá, tomou um pano de cilício, e estendeu-lho sobre uma penha, desde o princípio da sega até que a água do céu caiu sobre eles; e não deixou as aves do céu pousar sobre eles de dia, nem os animais do campo de noite. (2 Samuel 21.10) 


E ela perguntava pelos corpos dos filhos, pelos filhos da outra: sem cansar, sem desistir: onde está o responsável? quem tinha o poder de deixar que tirassem a vida do corpo desses meninos: que assuma! Que venha a público! Que se assuma a responsabilidade! E assim ela fez dias e dias, semanas e meses... até que o grande poderoso, violento e dissimulado rei Davi assumisse o crime: não foi ele... mas foi a política dele! Criminoso!
e depois disto deus fez paz com a terra...(2 Samuel 21.14) 


Minha religião é essa, essa minha tradição, as apóstolas da justiça, as herdeiras da coragem que move a esperança. Nós também queremos saber: Onde está o Amarildo da Rocinha? O que fizeram com ele? Quem fez? Quem vai assumir a responsabilidade? E nesse domingo com todas as mães de maio - guerreiras de todas as periferias - e todos os outros dias necessários repetiremos o gesto amoroso de perguntar pelo corpo d@s filh@s do povo e todas as igrejas e comunidades que se comprometem com o evangelho de Jesus vão entoar o único cântico que deus acolhe: aonde está o teu irmão? aonde está tua irmã? (Gênesis 4)

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Nancy Cardoso PereiraPastora metodista, graduada em Teologia e Filosofia, mestra e doutora em Ciências da Religião, com pós-doutorado em História Antiga. É membro do conselho editorial da Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana (RIBLA) e agente da Comissão Pastoral da Terra. Vive atualmente na Costa Rica, onde é reitora da Universidade Bíblica Latinoamericana. É mãe de Clarissa e Daniel.




NOTA DE REPÚDIO DE RACISMO E ABUSO DE AUTORIDADE

Nota da Rede Fale que ajudei a redigir...

A Rede FALE vem a público repudiar o abuso de autoridade policial e racismo ocorrido no dia 11 de agosto em Maceió/AL, contra Franqueline Terto dos Santos e Benedito Jorge Silva Filho.

Condenamos não apenas esta situação específica de racismo e abuso de poder, mas recusamos a maneira pela qual o Estado trata a população, discriminando por cor/raça/etnia, tratando de forma diferenciada as negras e os negros de nosso país.

Relegar o racismo a um plano pessoal é ver os casos de abuso de poder da polícia como casos isolados. Na verdade, o que temos hoje é uma série de instituições que participam de um Estado policial e racista, que vigia e pune as pessoas, e que separa aqueles que considera dignos daqueles que julga indignos de uma cidadania de fato e não apenas de direito.

O escritor cubano Carlos Moore afirma, em seu livro Racismo e Sociedade, que “existe uma tendência crescente para trivializar o racismo, seja relegando-o à esfera puramente das relações interpessoais, seja reduzindo-o ao plano dos meros preconceitos que ‘todo o mundo tem’.” Essa tendência tão presente no Brasil acaba por invisibilizar o racismo e seus efeitos devastadores sobre as negras e os negros, inviabilizando as possibilidades de combatê-lo eficazmente.

Essa cidadania seletiva do Estado brasileiro que nega direitos aos negros e negras, dentre outros grupos “minoritários” , se fez presente de forma concreta com a prisão arbitrária de Franqueline Terto dos Santos, integrante da Rede Fale em Alagoas.

Como uma rede cristã, nós, da Rede FALE, evocamos também o testemunho da Bíblia Sagrada, onde está escrito: "Meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não façam diferença entre as pessoas, tratando-as com favoritismo" (Livro de Tiago, capítulo 2, versiculo 1).

Que a sociedade e o Estado brasileiros não façam diferença entre as pessoas, mas que defendam os direitos de todas e todos, com atenção especial para o modo como alguns grupos vêm sendo historicamente tratados, e que se estende aos dias de hoje. Que a sociedade e o Estado corrijam suas práticas racistas, violentas e discriminatórias.  

Oramos por um arrependimento racial, social e institucional, porque racismo, discriminação e abuso de poder também são pecados!


16 de agosto de 2013.

sábado, 24 de agosto de 2013

Conversa sobre RACISMO



A Rede FALE -RJ promove mais um encontro/conversa, dessa vez o tema é: RACISMO.

Eis os componentes da mesa:

-Ana Gomes - professora e orientadora pedagógica na SME/RJ, cineasta e coordenadora do Fórum Permanente de Mulheres Negras Cristãs;

-Hélio Santos - professor e conselheiro no Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (COMDEDINE/RJ);

-Rogério Gomes - Advogado, Secretário Geral da Comissão de Igualdade Racial da OAB/RJ e Assessor da SUPIR-SEASDH;

-Wagner Agnello - Engenheiro e estudante de Teologia na Universidade Metodista de São Paulo;

-Mediador - Ronilso Pacheco - estudante de teologia na Pontífica Universidade Católica e articulador social no Viva Rio e integrante da Rede Fale.

Participe e chame suas amigas e amigos!

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Sobre a violência contra os negros

"A violência que alcança os jovens negros e pobres nas periferias brasileiras 

não se encerra no homicídio. É um caminho de rastro doloroso, q passa pela

humilhação, a supressão de direitos, o abuso, o assédio e quiçá o estupro 

das jovens mais belas, o abuso de poder, o distanciamento dos canais de 

direito e reivindicação e outros... A violência física mata e marca. A violência 

simbólica oprime. As energias gastas para enfrentar uma, não pode nos 

distrair para a exigência do enfrentamento da outra." (Ronilso Pacheco)

domingo, 21 de julho de 2013

É preciso vandalizar as igrejas

Por Ronilso Pacheco na Novos Diálogos.

É preciso vandalizar as igrejas

Vandalismos são uma afronta ao estado democrático de Direito.
Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro

O direito não é a Justiça.
Jacques Derrida, filósofo francês

Não obstante as duas epígrafes acima, eu inicio este texto com uma citação do performático filósofo esloveno Slavoj Žižek, contida nas primeiras páginas de seu livro A Marioneta e o Anão:

No quadro desta nova ordem mundial, há dois papéis possíveis para ela [a religião, aqui substituída pela Igreja e sua atuação]: Terapêutico ou Crítico – ou ajuda os indivíduos a funcionarem cada vez melhor na ordem existente, ou procura afirmar-se como instância crítica e dizer o que está errado nessa ordem como tal, ou seja, enquanto espaço aberto às vozes contestatárias.

Um “desejo de paz” invade as igrejas. Instituições que “ensaiaram” uma presença nas manifestações, as igrejas passaram a “fazer a diferença” pedindo manifestações pacíficas, assustadas com o grau de radicalidade em alguns atos. E em diversas igrejas evangélicas que se propuseram a discutir o efeito manifestações (pouquíssimas), a discussão sobre a legitimidade e relevância das manifestações perdeu espaço para a legitimidade e a possibilidade de haver algum “componente cristão” na “violência” e no “vandalismo” aplicado aos patrimônios públicos e privados das cidades por alguns.

Mais do que nunca, uma dificuldade são as definições. Concordo com Gastón Bachelard, que dizia, com sua sabedoria profética, que conceitos são como gavetas. De fato, se tudo o que temos são categorias e conceitos estabelecidos de cima pra baixo, com a perspectiva propositiva única a partir do poder e do Estado, então a única maneira de abordar e interpretar os acontecimentos atuais, bem como a leitura que fazemos dos sujeitos desta ação e o olhar que temos sobre nós mesmos, tem exatamente essa construção que parte do poder e do Estado como referência definidora. Estamos nós engavetados, e todas as nossas narrativas (discurso, justificativas, acusações, defesas, comentários) partem deste lugar, que não é o lugar de todos, e provavelmente não pode servir para falar de todos.

Portanto é preciso também subverter a linguagem, e todo o seu corolário (os conceitos, as categorias, as etimologias, as raízes e os enraizamentos, as metáforas...). É preciso in-verter o caminho da interpretação e romper a posse, a cooptação, o enquadramento, a tematização, este terror temido por Levinas (“a tematização não é a paz com o Outro, mas a supressão ou posse do outro"), que é despejada e assimilada, como armadilhas que capturam presas (e nós precisamos decidir onde “nos encaixamos”: vândalos, baderneiros, arruaceiros, pacíficos, exaltados, truculentos, violentos, que mais?).

Nossas igrejas deveriam ser lugares de ressignificação, lugares por excelência da recepção crítica das categorias de avaliação e leitura da realidade social (cada vez mais capitalizada). O exemplo de Jesus é o da ressignificação, da (re)conceitualização — que desconstrói a vigente e torna outra a ser pensada — que re-(i)nova o entendimento. Ao próximo (entendido como o parente, judeus entre judeus, fariseus entre fariseus, um de nós) ele amplia o sentido e inclui o Outro, o “distante”. A famosa parábola do samaritano mostra que o próximo pode ser o diferente, não tematizado por sua origem, mas acolhido por sua necessidade. É provável que Jesus tivesse outra ideia de violência na cabeça quando foi tão agressivo em seu zelo com o templo. Sábio, ele já devia saber que a violência é uma palavra tão polissêmica, que só mesmo a “colonização” do termo por um grupo ou alguns setores, poderia justificá-la como sendo apenas reconhecida como tal (a agressão e destruição deliberadas pura e simplesmente) em uma determinada situação, e nunca em outras.

Então talvez seja preciso “vandalizar as nossas igrejas”, eu diria. É preciso vandalizar as interpretações costumeiras, hermenêuticas desconectadas com a realidade, ou, com a ordem existente, para voltar a Žižek; é preciso vandalizar os espaços vazios dos sermões apagados, que tornam a desigualdade social invisível aos olhos dos crentes ouvintes; vandalizar o patrimônio da instituição da “verdade”, que nega o direito à existência do outro e do seu reconhecimento como sujeitos a serem contemplados na esfera pública; vandalizar os caminhos que dizem levar a Deus, sem passar pelo sofrimento e a dor do Outro; vandalizar o silêncio dos que pregam a paz, demonizando o conflito. Temos igrejas mornas, em tempos quentes. Compramos a cartilha do Estado Democrático de Direito, mesmo sabendo que este Estado Democrático de Direito não garante, por si só, a manutenção da justiça e dos direito sociais, e é, reconhecidamente, incapaz por si só de contemplar a dinâmica das demandas da vida cotidiana dessa mesma esfera pública.

Não é o caso de defender a violência e o vandalismo. Ou é, se a única definição possível não for a que temos, a que nos deram ou a que herdamos. Eu apenas perguntaria se o “bem aventurados os pacificadores” permite apenas uma hermenêutica que nos deixe tão mais próximo da apatia política, da postura acrítica e da “bem comportada” manifestação em defesa da paz (apenas uma marcha talvez) ou também há espaço para aqueles que se colocam à disposição das tensões sociais em tempos de crise, de exacerbação dos que têm a legitimidade da força e da violência, e de surdez do poder. “Ouça o Espírito, ouça o mundo”, diria o saudoso John Stott. Eu apenas destrincharia: ouça os pobres, ouça as periferias, ouça os jovens negros exterminados cotidianamente, ouça o estado de exceção nas comunidades “pacificadas”, ouça as remoções ilegais em benefício do mercado e dos poderosos, ouça a indiferença do poder público com os desabrigados nas tragédias naturais, ouça a invisibilidade dos que morrem na favela, ouça o clamor por saneamento básico e dignidade reconhecida. É preciso vandalizar as igrejas, seja lá o que isso signifique.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Levante sua voz contra a violência do Estado no Complexo da Maré...

Carta Pastoral da REDE FALE sobre o ocorrido na Maré


Fale – Levante sua voz contra a violência do Estado no Complexo da Maré e em tantas outras periferias do Brasil!

Na última segunda-feira dia 24 de junho, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, com seu Batalhão de Operações Especiais (o famoso Bope), tomou a Favela Nova Holanda, no complexo da Maré, em retaliação à morte de um policial militar em confronto naquele dia. A ação deixou nove mortos e está sendo acusada de falta de planejamento, de ser motivada por vingança e de utilizar força desmedida. Há testemunhos de humilhação e intimidação de moradores e também de execuções sumárias. Ainda hoje, a favela permaneceu tomada pela PM, em um verdadeiro exercício de estado de sítio sob suas/seus moradoras/es, ameaçando seu direito à justiça, à liberdade e à dignidade.

Na Bíblia, o livro de Isaías é abundante sobre as reivindicações por justiça: "O fruto da justiça será paz; o resultado da justiça será tranquilidade e confiança para sempre" (Isaías 32:17). Dentre os efeitos do alcance da justiça, estão a paz, a tranquilidade, a confiança e o direito à vida: "Não mais haverá na cidade criança que viva poucos dias, nem idoso que não complete seus anos de idade." (Isaías 65:20a). 

Aplicando os princípios bíblicos à realidade fluminense e brasileira, podemos concluir que se as injustiças são causadoras da insegurança vivida pelo povo, então, toda ação (seja ela do Estado ou da sociedade civil organizada) que pretenda agir sobre a “segurança” da população sem mexer nas estruturas sociais e raciais injustas é uma medida equivocada. 
O profeta Isaías nos adverte ainda: “Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo” (Isaías 10:1-2).

Ainda em Isaías, temos também um apontamento das causas das injustiças e desigualdades sociorraciais, em forma de denúncia à concentração de terras por parte de determinado grupo: "Ai de vocês que adquirem casas e mais casas, propriedades e mais propriedades, até não haver mais lugar para ninguém e vocês se tornarem os senhores absolutos da terra!" (Isaías 5:8).

O direito à moradia e o direito à vida têm sido violentados diariamente na cidade do Rio de Janeiro e em outras cidades do Brasil. O Estado brasileiro é responsável por garantir direitos. Cada vez que o poder público autoriza uma invasão policial desse tipo põe em risco a vida de milhares de pessoas moradoras das favelas. Desta forma, o Estado autoriza assim a negação de direitos e por isso deve também ser responsabilizado. 

O que vimos acontecer no Complexo da Maré, na cidade do Rio de Janeiro, neste começo de semana é a repetição e continuação de uma série de violações de direitos a que as populações pobres da cidade passam todos os dias. Tais direitos são zelados e reivindicados pela própria Bíblia, que pede o compromisso e a manifestação pela defesa dos mesmos daqueles que a tomam como regra de fé e prática!

Se você é cristã(o) e cidadã(o), não deixe de manter-se informado, de orar e de agir para que todas as pessoas, sobretudo  as/os pobres, as/os pretas/os e moradoras/res das favelas (alvos preferenciais da violência estatal), tenham vida e vida em abundância, a começar pela garantia dos direitos à moradia , à vida, a ir e vir e a manifestar-se publicamente.

Rio de Janeiro, 25 de junho de 2013
Rede Fale

Ocupar a saúde

[pensando alto]

O "movimento dos ocupas" (Occupy Wall Street, Occupy All Streets, Ocupa Rio, Occupy the Church e outros...) tem muito a nos ensinar, sobretudo metafórica ou simbolicamente. Fico pensando o quanto precisamos ainda "ocupar a saúde", sobretudo "ocupar a medicina" e mais especificamente "ocupar o poder médico". Chega de "representação", de médicos com um "mandato" distante da população. Está na hora de uma "prestação de contas" mais horizontal e coletiva. Está na hora de uma "saúde" menos segregada e segregadora.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

É inútil revoltar-se?

Isaac Palma, irmão de Luta e Caminhada de SP, nos brindou com esse breve texto sonhador! Revoltar-se não é inútil!

20 Centavos e o preço das Manifestações

*por Isaac Palma

Foto: Rafael Lira
Invariavelmente, não foram os 20 centavos que nos levaram as ruas de São Paulo, apesar de existirem razões cabíveis para protestar por esses 20 centavos. Definitivamente não são apenas os valores das passagens que tem levado pessoas as ruas, não só em São Paulo, mas em várias cidades do Brasil. Existe algo simbólico em todo levante popular, não significa que o que o Estado fez nunca foi feito, mas que chegou ao nível de ser intolerável, não saímos as ruas por esse último aumento, mas por todos os que tiveram até agora e em um tipo de esperança de que eles não sejam mais uma realidade entre nós, graças a uma indignação constante.

Existe uma distância astronômica, para aqueles que foram as ruas por esses dias pedir pela redução do valor da passagem, entre o valor anterior e esse que o Estado nos presenteou. Se enganam aqueles que acham que esses protestos são sobre transporte publico ou mobilidade urbana, eles passam inevitavelmente por isso, mas não são sobre isso. Existe um tanto de revolta não só com o Estado, mas também com toda a Sociedade, e isso obviamente nos inclui, não estamos ali somente pelo que está posto agora, estamos também por todas as nossas omissões anteriores. Estamos ali porque não aguentamos mais ficar parados dizendo que ninguém faz nada, ou que os políticos são corruptos e nada pode mudar isto.

Entre a Avenida Paulista e a Consolação, nos poucos centímetros que transformam uma em outra, pisei em 2013 como se pisasse em meados das décadas de 80, época em que os sonhos não descansavam, e que sonhar não era só possível como era necessário. Era como se num lapso de tempo pudesse viver aqueles anos que não vivi como ser humano mas inevitavelmente vivi como Brasileiro. Abandonar nossas distopias cotidianas talvez ainda nos leve tempo, trocar por velhas e (por que não?) novas utopias nos custe esforços que não estamos ainda dispostos. Ver aqueles sonhos de uma nação mais justa serem transformados em ensaios tecnocratas de mentiras mal contadas, talvez tenha sido um baque por demais doloroso em nós, e por isso esse silencio sepulcral, talvez por isso nossas omissões anteriores.

Recordo-me que a mesma cena se repete diversas vezes na história, como o estopim de uma coisa aparentemente insignificante pode se transformar num levante que muda os rumos de países, cidades ou bairros. Relembro a história do Cristo indignado, com os exploradores do povo, dos profetas que não quiseram nem puderam se calar com a hipocrisia daqueles que exploravam os oprimidos. Me identifico com esses sonhadores que vislumbraram outro mundo sobre os escombros daquele que estava a sua frente.

Isaac (esquerda) e Rafael  - Falantes marcando presença nas
manifestações. (Foto: Rafael Lira)
Por fim não podemos ser ingênuos a ponto de acreditar que mudaremos o Brasil de uma hora pra outra, ou que todos temos o mesmo sentimento, que todos os que foram as ruas acreditam nas mesmas coisas, esses movimentos aglutinam forças opostas dentro de si, e isso deve ser ressaltado, mas é justamente na contradição que emana a beleza dessa luta, somos sim contraditórios e múltiplos: plurais. Existem brigas e divisões, mas em comum decidimos Sonhar.


*Isaac Palma é articulador da Rede FALE SP e escreveu esse texto reflexivo a partir da experiencia na marcha acontecida no dia 11/06/2013, que uniu mais de 10 mil pessoas nas ruas de São Paulo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Educação e Religião: uma aula do Professor Renato

Muito interessante a fala do Prof. Dr. Renato Noguera (UFRRJ) sobre Educação, Pensamento e Religião, defendendo um ensino não confessional, mas interreligioso. Ele o faz não simplesmente a partir da ideia de laicidade, mas defende uma perspectiva pluriversal e polirracional. Vejam o vídeo e vocês vão entender.


domingo, 5 de maio de 2013

Juventude Batista Brasileira segue levantando a voz por justiça


No último dia 1º de Maio, Dia do Trabalhador, a Juventude Batista Brasileira lançou Manifesto (Manifesto da Juventude Batista Brasileira para os Direitos da Juventude ao Trabalho Decente) no site do CONJUVE.

No Manifesto, além de 12 reivindicações concretas em termos de direitos para as juventudes, faz-se um link muito interessante com elementos da fé cristã. Leia um trecho:
Jesus Cristo, filho de carpinteiro, valorizava os trabalhadores, tanto é que seus discípulos eram todos trabalhadores: pescadores, funcionários públicos, fazedores de tendas, entre outros. Essa é uma questão essencial: trabalho decente e bem remunerado a juventude.
Que nesse 1º de Maio, Dia Internacional do Trabalho, nós possamos, como juventude, defender as leis já conquistadas e caminhar para outras proposições que garantam direitos sólidos a todos os jovens trabalhadores do Brasil. É do Apóstolo João a seguinte afirmação: “Jovens, eu vos escrevi, porque sois forte, e a Palavra de deus permanece em vós e já vencestes o Mal.” 1Jo 2.14

O Manifesto completo você lê aqui.

Outro documento muito importante da Juventude Batista Brasileira, que podemos enxergar como um marco na história recente desse grupo denominacional é a Carta de Rio Bonito (2009). Já publicada aqui no blog.

Tenho fé que as juventudes denominacionais e os jovens membros das mais diferentes igrejas vão se envolver cada vez mais na luta por justiça e por uma sociedade melhor para todos e todas!

quarta-feira, 24 de abril de 2013

"a luta por direitos humanos é a essência da nova luta de classes hoje"

Gostei bastante do trecho da entrevista com Marcelo Freixo (Deputado Estadual pelo PSOL-RJ) disponibilizado no site da Revista Fórum. A entrevista integral está disponível apenas nas bancas.

A fala de Freixo trata, em determinado momento, diretamente do genocídio da juventude negra e pobre. Vale a pena lê-la, até mesmo para fazer um uso de sua fala numa AGENDA de enfrentamento dessa violência contra os jovens.

Do trecho disponível, destaquei a seguinte passagem, que me soou bastante interessante para disparar uma reflexão em torno dessa disputa em torno do que é o humano hoje (questão para um outro momento):

"A polícia entra na favela e cinco pessoas morrem, isso cria uma grande comoção? Não. Porque, na nossa cabeça, essas pessoas já foram julgadas, julgadas pelo nosso medo. “Polícia entra na USP e mata cinco”. Toda a imprensa vai para lá. Que merda é essa? A dignidade tem endereço, a decência humana tem endereço, é de classe. Por isso, a luta por direitos humanos é a essência da nova luta de classes hoje. Porque não está na relação capital e trabalho, está entre quem é humano e quem não é. Quando um sujeito diz: “Direitos humanos para humanos direitos” é porque ele está dizendo que existe uma categoria que não é humana. Há uma busca de legitimidade do extermínio, seja físico ou moral." 

Por ora fico com o seguinte.
Acredito que a afirmação "a luta por direitos humanos é a essência da nova luta de classes hoje", dentro do contexto apontado por Freixo em outros momentos da entrevista em que ele coloca de forma mais explícita a relação entre cor/raça/etnia e classe, nos permite pensar essas outras dimensões da vida que atravessam a "luta de classes" hoje. 

Por um lado, é preciso pensar recortes de gênero, raça e orientação sexual dentro da questão de classe. Por outro, é preciso pensar dentro das questões de gênero, raça e orientação sexual, as questões de classe.

Sem esses atravessamentos aí sim corremos o risco de cair no que a "esquerda tradicional" chama (ou chamou) de "fragmentação" da luta, de pulverização de "microlutas". Para a "esquerda tradicional", estas lutas específicas não conseguiriam mexer com relações ainda fundamentais ligadas ao funcionamento da sociedade capitalista, ao acúmulo e à circulação do capital. Questões a se pensar... [Aqui, tentei refletir um pouco sobre a especificidade das lutas, mas já desenvolvi essa reflexão um pouco desde então...]


Em suma, acredito nas microlutas e também no seu possível atravessamento com essas questões "macro" do capital. Vejo nesse "agenciamento" a grande potência das novas lutas de hoje!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Paz armada? (estudo bíblico)


Estudo Bíblico elaborado em 2009 por Pedro Grabois

PAZ ARMADA?
(estudo bíblico participativo)
Há várias formas de se estudar os textos bíblicos. Uma delas é uma aproximação temática. O estudo de hoje foca na questão da paz. Há diversas maneiras de tratá-la: como algo relativo ao interior do indivíduo, como algo construído socialmente, como algo promovido por instituições; alguns vêem a paz como a ausência de guerra, etc. Afinal, o que entendemos por paz? O que os textos bíblicos falam sobre a paz?

O foco de hoje é na paz a partir do Sermão do Monte

Mateus 5: 9: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.”
1. Se levarmos em conta todo este trecho do início do Sermão do Monte, que fala das Bem-aventuranças, poderemos perceber como a paz se insere num contexto maior. Qual a importância de pensar a paz a partir de um contexto determinado? Diante desse contexto como fica a idéia de “promoção da paz” relacionada à de ser chamado “filho de Deus”?
2. Sabemos que o livro do profeta Isaías influenciou bastante a escrita dos Evangelhos. A presença do pensamento de Isaías no Sermão do Monte também é bastante notável. Em Isaías 32: 17 lê-se: “O fruto da justiça será a paz, e a obra da justiça consistirá na tranqüilidade e na segurança para sempre.” Como você entende essa relação entre paz e justiça? Ela também está presente nas palavras de Jesus, no Sermão do Monte?
3. No Evangelho de João, Jesus diz “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe nem se intimide vosso coração.” (João 14: 27) e na Carta de Paulo aos Filipenses este escreve “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.”(Filipenses 4: 7). Aqui a paz parece ser vista de uma outra forma. Como você a vê nestas duas novas passagens? E como esta paz aqui se relaciona com a paz evocada no Sermão do Monte?

MINHA ALMA (O Rappa)
A minha alma tá armada e apontada
Para a cara do sossego!
(Sêgo! Sêgo! Sêgo! Sêgo!)
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!
(Medo! Medo! Medo! Medo!)
As vezes eu falo com a vida,
As vezes é ela quem diz:
"Qual a paz que eu não quero conservar,
Prá tentar ser feliz?"

As grades do condomínio
São prá trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão
Me abrace e me dê um beijo,
Faça um filho comigo!
Mas não me deixe sentar na poltrona
No dia de domingo, domingo!

Procurando novas drogas de aluguel
Neste vídeo coagido...
É pela paz que eu não quero seguir admitido

É pela paz que eu não quero seguir
É pela paz que eu não quero seguir
É pela paz que eu não quero seguir admitido

4. A letra da música faz uma crítica a um tipo de paz que é no fundo uma falsa paz. Também se fala muito de paz em contraposição à guerra. Como saber discernir a falsa paz da verdadeira paz, na sociedade de hoje, e se engajar em promover a paz, da qual o Sermão do Monte fala?

domingo, 21 de abril de 2013

A exigência de um pensamento fraco no devir minoritário


Publicado na Novos Diálogos, o texto A exigência de um pensamento fraco no devir minoritário do meu amigo Ronilso Pacheco elabora um interessante diálogo com o meu texto (Por um devir minoritário no devir evangélico do Brasil) também publicado na Novos Diálogos (e antes na Uninômade) e que eu redivulguei aqui no blog essa semana.

Leiam um trecho do provocativo/reflexivo texto do Ronilso:



"Ao descobrirmos que fomos tornados produtos que desconhecemos, somos atraídos por caminhos desconhecidos deste devir minoritário deleuziano, impregnado do evangelho e das boas novas de salvação. São negros, e afirmam sua negritude; são gays, e afirmam sua sexualidade; são mulheres, e afirmam sua feminilidade e autonomia; pode não haver posição fechada sobre o aborto; pode não haver posição fechada sobre a legalização/descriminalização das drogas; não podem ser representados, porque querem falar por si mesmos; e não querem (ao menos não perseguem a ideia de) ser maioria, querem o devir minoritário. Querem a liberdade, a porta escancarada para o diálogo, as fronteiras baixas de espiritualidades outras que não nossas.

Neste terreno informe, afunda-se toda homogeneização, todo tratamento em massa, toda leitura generalizada, e passa a ser subvertido o enquadramento do perfil evangélico numa categoria única, apreendida pelos dados, pelas pesquisas, pelos censos ou pelo trabalho de campo. Há a emergência de uma referência evangélica que se capta a partir da relação. É o encontro. É o lugar do outro na abertura de si, que parece permitir apreender com mais precisão as características de uma “verdade” evangélica, influenciada e referenciada de fato em Jesus."

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O sinal de Nínive, Feliciano e nossa responsabilidade


Dentre as muitas reflexões sobre a "questão Feliciano" e sobre o envolvimento do FALE nisso tudo, aqui está um texto que me tocou diretamente. Ana Elizabete é uma irmã de fé e caminhada muito especial: pude conhecê-la em junho de 2012, quando da realização da Cúpula dos Povos/Rio+20 e nos mantemos sintonizados indiretamente (e também em agendas e demandas da rede) desde então. Percebo na sua reflexão devocional sobre uma situação tão séria (que envolve tantos e tão diversos atores sociais) um "elemento piedoso" sem o qual não posso e nem o FALE pode ir adiante. Leiam vocês mesmos!


O sinal de Nínive, Feliciano e nossa responsabilidade


Por Ana Elizabete Machado*


Como afluíssem as multidões, passou Jesus a dizer: Esta é geração perversa! Pede sinal; mas nenhum sinal lhe será dado, senão o de Jonas. Porque assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, o Filho do Homem o será para esta geração.[...]Ninivitas se levantarão, no Juízo, com esta geração e a condenarão; porque se arrependeram com a pregação de Jonas. E eis aqui está quem é maior que Jonas. (Lucas 11. 29, 30 e 32)

Da esquerda para a direita, Damaris Bacon, Ana Elizabete,
Jéssica Ribeiro e Marcel Cintra.
Semana passada pude refletir bastante sobre este texto do Evangelho de Lucas. Sem pretensão de mudar o texto bíblico, mas o que gostaria de enfatizar é “o sinal de Nínive”. Na tradução da Bíblia Judaica Completa o versículo 32 diz: “As pessoas de Ninveh se levantarão no juízo com esta geração e a condenarão; pois elas abandonaram o pecado e voltaram para Deus quando Yonah pregou, e agora está aqui quem é maior que Yonah”. São palavras do Cristo, o Jesus de Nazaré, que diz que a pregação de Jonas alcançou os ninivitas e eles abandonaram o pecado e voltaram para Deus.
Nesta mesma semana também fui à Câmara Federal, junto aos representantes da Rede FALE entregar a petição ao Partido Social Cristão (PSC), que pedia ao partido que repensasse o nome de Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM), da Câmara dos Deputados. Foi um tempo bom, em que pude aprender bastante (como sou nova nestes espaços de luta política, observei muito). Ao entregarmos a carta com as mais de 19 mil assinaturas e expor nosso ponto de vista, pedimos ao presidente do partido que nos apresentasse quais eram as qualificações que o PSC via em Marco Feliciano para indicá-lo à presidência da CDHM, já que a escolha do nome foi um processo democrático e interno do partido, como explicado pelo presidente. Nossa pergunta não foi respondida a não ser com os dados de quantidade de eleitores e afirmação de excelente conduta do deputado pastor Marco Feliciano. Num dado momento, a insistência em nossa pergunta (não-respondida) foi tomada como ofensa. Como se sabe, saímos sem resposta e sem o nosso pedido atendido.
Há algo que me faz pensar em associar o sinal de Nínive conosco e a situação que estamos vivendo enquanto evangélicos neste país.
Talvez o sinal que queiramos não vá acontecer, talvez Feliciano continue na CDHM, repito, talvez. E pensar em Nínive e em Jesus me traz esperança porque o sinal de Nínive nos convoca a ouvir a pregação de Jonas e Jesus: “abandonem seus pecados e voltem para Deus!” Acredito que esta mensagem não é só para Marco Feliciano (é também!), mas é para nós (enquanto Rede Fale, indivíduos, membros do Corpo, sinal do Reino e/ou cidadãos brasileiros), que continuamos lutando pelos direitos humanos em todos os nossos variados espaços (inclusive na CDHM, a qual fomos convidados a acompanhar de perto pelo deputado Roberto de Lucena, do PV-SP que participou da reunião, e é um dos membros da Comissão), que esta luta faz parte do nosso abandono do pecado e da volta para Deus. Na compreensão de que esta volta é um processo que deve durar a vida inteira.
A nossa responsabilidade é responder ao sinal de Jonas sendo sinal de Nínive. Através da nossa devoção (voltar para Deus) e da nossa prática (abandonar o pecado) e esta prática que é também continuar lutando para que os oprimidos (órfãos e viúvas contemporâneos) tenham seus direitos garantidos, esta luta vai continuar com o nosso acompanhamento à CDHM e nos nossos espaços de convivência.
“ADONAI prova os corações” (Pv. 17.3b) e clamamos que nossos corações sejam aprovados na luta pela justiça e para que os que “não têm voz” sejam ouvidos. Clamamos que sejamos humanos, como Cristo foi. Clamamos que não demonizemos a nenhum ser humano, de fato, nenhum. Clamamos que sejamos sinal do Reino servindo aqueles que mais precisam. Clamamos por nós, brasileiros, e nossos representantes políticos. Clamamos para não esquecer nossa responsabilidade. Clamamos para não achar que Deus ainda precisa fazer mais um sinal. Clamamos para que o sinal de salvação de Nínive nos alcance e alcance toda a nação.

*Ana Elizabete é cristã, representante da Rede FALE no Conjuve e inicia a articulação da rede em Goiânia. Também participa da ABUB e é professora da rede estadual de educação em Goiás.

FONTE: http://redefale.blogspot.com.br/2013/04/o-sinal-de-ninive-feliciano-e-nossa.html