sábado, 9 de julho de 2016

Acusar os acusadores?

Há uns dias compartilhei essa frase do Nietzsche: "Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores". Ontem tava pensando o quanto que "acusar os acusadores" é algo muito perigoso, arriscado, problemático. Se o consenso estabelecido já institui algumas autoridades capazes de acusar quase livremente quem quer que seja, então o ato de criticar as autoridades instituídas com o fim de "acusar" vai ser em geral mal visto, visto com suspeita, visto com acusação. Quem ousa acusar os acusadores? Quem ousa criticar administradores da vida que têm o monopólio da acusação? Pensemos na Polícia, que tem o poder de identificar e solicitar a identificação de indivíduos e grupos, regular suas ocupações e atividades, seus movimentos, seus passos, seus gestos, sua cor, seu gênero, sua classe, etc. Pensemos também no Judiciário, nas instituições escolares, universitárias, hospitalares, etc. Todos estão armados para serem "bons acusadores". Ir contra isso é, no mínimo, suspeito. Lembro de um pedaço da Bíblia que falava que nossa justiça tinha que ser "mais justa" que a dos "mais justos". "Mais justos" como referência aos fariseus, que podem aqui ser pensados como um grupo mais ou menos instituído e frequente usuário do poder acusatório sobre os pequenos desvios e pequenos detalhes da conduta de cada indivíduo. Quando Jesus fala que nossa justiça deve exceder a Justiça instituída, penso numa justiça não acusatória, uma justiça que recusa acusar. Como levar isso adiante, para além de um registro individual?

[coisas que a gente posta meio do nada naquela rede social fechada...]

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Carta ao Pastor Ezequiel Teixeira

CARTA AO PASTOR EZEQUIEL TEIXEIRA, NOVO SECRETÁRIO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL E DIREITOS HUMANOS
Ao pastor,
Meu nome é Ronilso Pacheco, e sou evangélico também. Soube com preocupação da sua nomeação para esta importante pasta. Preocupação porque o senhor sabe que não deveria estar aí, e sabe mais ainda que só chegou aí fruto de uma manobra política.
Isso já seria motivo suficiente para o senhor, sendo evangélico de fato, não aceitar o convite para assumir o cargo.Uma vez que o convite não está vinculado a sua experiência, mas a interesses do jogo de poder, se o senhor aceita, é porque também está interessado no jogo de poder e não no que pode servir a sociedade a partir daí.
Gostaria que o senhor soubesse que esta Secretaria não é a sua Igreja, e que, portanto, sou um dos também evangélicos que estarão permanentemente de olho na sua gestão e em qualquer tentativa de beneficiar interesses que pensem apenas nas igrejas e nos evangélicos, privando a sociedade (sobretudo os grupos sociais mais marginalizados e destituídos de direitos) de voz e de espaço digno na esfera pública.
Não esqueci o seu apoio à redução da maioridade penal, o que constitui uma vergonha, vindo de um pastor, que ignorou o ECA e semeou a desesperança na recuperação de adolescentes que cometeram ato infracional.
Não esqueci o seu vergonhoso voto que negou o reconhecimento do conceito de família para pessoas do mesmo sexo, chamando de "desarranjo familiar" e de "anarquia". Em qualquer Estado sério, o senhor não teria legitimidade para ocupar esta secretaria, uma vez que sequer tem a humanidade necessária para reconhecer que a experiência familiar não se resume ao seu mundo, à sua religião e à sua própria família.
Mas aí o senhor está. Então, pastor, vigia, mas vigia muito. Nós vamos acompanhar seus passos, suas medidas, suas decisões, suas entrevistas, suas declarações.Vamos exigir seu posicionamento toda vez que ignorar direitos de outros, em nome de interesses seus e do seu grupo. Vamos querer audiência com você, vamos te cobrar. Se não nos receber, estaremos te esperando na porta da sua Igreja. Seremos como João Batista, como Jeremias, e não daremos trégua.
Por fim, minha oração pelo senhor é que o senhor perca o sono. Que a violência que acomete os pobres, que as violações do Estado, que os direitos humanos pisoteados nas favelas e nas periferias não saiam da sua consciência e não lhe deixem dormir em paz até que o senhor queira dar a elas a devida atenção, como a viúva pobre, como Rispa.

Rio de Janeiro, 16 de Dezembro.
Ronilso Pacheco 


(extraído do facebook)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Indústria cultural/racismo cultural

Tô eu aqui numa luta enorme com o conceito de Indústria Cultural, pra poder trabalhá-lo legal com os estudantes. É interessante e tal, mas em si mesmo e sobretudo no efeito que seu uso gera, acabo vendo um tipo de crítica social muito conservador. Ainda assim, a crítica marxista por ele repatriada ajuda a pensar a cultura como algo não neutro, mas sempre fruto de investimentos pesados. A máquina industrial que investe na e produz a cultura é mesmo um "fato inegável".
Mas vejam esse trecho de Adorno/Horkheimer: "O amor funesto do povo pelo mal que a ele se faz chega a se antecipar à astúcia das instâncias de controle". Isso me remeteu à crítica que Frantz Fanon faz ao pensamento que acaba por legitimar a colonização ao sugerir a existência de um "complexo de inferioridade" do colonizado, isto é, uma predisposição em ser colonizado que seria inerente ao colonizado. Obviamente, Fanon mostra de que maneira essa perspectiva é racista. Aqui, um encaminhamento possível seria pensar o "efeito Indústria Cultural" no pensamento social como (re)alimentador de todo um racismo cultural. Tirem suas próprias conclusões.  

(Dia 13 de novembro de 2015, no Facebook)

Punitivismo/moralismo de #meuamigosecreto?

E se a tendência em ver punitivismo em tudo já não for uma estratégia punitivista? A crítica ao "punitivismo" das feministas pode acabar sendo lida como tentativa de desautorização (pra não usar o termo "silenciamento") de uma luta que é em si mesma um acontecimento incomensurável. Ainda mais quando essa crítica "bem intencionada" vem do lugar "masculino". É preciso ter muito cuidado e fazer muita autocrítica para emitir opiniões contra ou a favor um movimento que não precisa da minha voz. Digo isso enquanto homem e branco e aqui já cometi um "deslize" por me manifestar,  mas achei necessário expressar o quanto estou aprendendo no meu canto com a campanha #meuamigosecreto. Um acontecimento! Negar sua força seria, no mínimo (no mínimo), ingênuo. Como não existem inocentes... erra só quem quer!

(27 de novembro de 2015, no facebook)