quinta-feira, 18 de maio de 2017

Unidade Eclesiástica Pacificadora?

[texto originalmente publicado na página de facebook da revista Novos Diálogos]

“É PM, a Civil, pronto pra te esculachar, e a força militar, pronto pra te exterminar, UPP pacificar, pacificar, pra reprimir, pra reprimir, para matar, o pobre exterminar...” (“A Maré tá cheia” – Anarkofunk)

O compromisso das igrejas evangélicas com a promoção da paz é um tema social e político bem interessante para aqueles/as que se engajam na defesa dos direitos humanos, pois em todo lugar que há conflitos sociais, lá estará presente uma igreja evangélica, para o bem e para o mal. Este é também um tema fundamental para os próprios cristã(o)s. Na Bíblia, não faltam menções à “paz”. Alguns possíveis exemplos: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mateus 5: 9); “O fruto da justiça será a paz, e a obra da justiça consistirá na tranquilidade e na segurança para sempre.”  (Isaías 32: 17); “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe nem se intimide vosso coração.” (João 14: 27); “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.” (Filipenses 4: 7) .
A presença dessa “paz” aí mencionada não é nada “pacífica”. A paz apresentada na Bíblia já está no contexto de uma disputa de leituras de mundos possíveis. Sem dúvida, a paz reivindicada no texto bíblico não pode ser reduzida a uma “paz mundana”, o que não significa que esteja alheia às condições sociais e políticas da “paz no campo e a cidade”.
Se quisermos falar de “juventude e violência” a partir de um engajamento ético e político cristão, temos vasto respaldo no texto bíblico. Olhando para a realidade brasileira, veremos números assustadores e entristecedores. Os jovens estão sobrerrepresentados entre os números de vítimas. Segundo o Mapa da Violência 2016, no período de 1980 a 2014, os jovens de 15 a 29 anos representavam 26% da população brasileira e 58% de vítimas de Homicídios por Armas de Fogo (HAF). São quase 500 mil jovens vidas brutalmente interrompidas num universo de mais de 830 mil vítimas no período. Enquanto igreja, um engajamento possível e real é estar ao lado dessas famílias que perdem seus jovens, das mães, pais, tios, tias, irmãos, irmãs, avôs, avós que ficam sem seus queridos filhos, sobrinhos, irmãos, netos...
Tratar a dimensão psíquica da perda é um caminho necessário, no entanto, não se pode, enquanto igreja, tratar o fenômeno em questão apenas como “casos isolados”... É preciso perceber o que coloca a vida de alguns jovens na mira das armas muito mais do que outros. Neste sentido, o racismo estrutural da sociedade é talvez o elemento central nesse processo de vitimação. Como já afirmei em duas reflexões anteriores (“Abolir a segurança” e “Jesus Cristo contra a vida segura”), não basta agir em termos de “securizar” a vida dos jovens, é preciso desarmar os mecanismos que hoje estão apontados contra eles. Escolas, ONGs, Governos, Hospitais, Polícias, Jornais, Igrejas, Tribunais, etc., cada uma dessas instituições envolve uma série de práticas e políticas que intencionalmente ou não coloca a vida dos jovens em risco, reforça, reitera os lugares de “vulnerabilidade”. As armas apontadas contra os jovens precisam parar de matar. A igreja também é violenta, racista, machista, homofóbica, elitista, etc. e precisa deixar de sê-lo. A igreja que se alia a uma “paz armada” promove a violência que diz combater. A legitimação da inclusão/exclusão dos/as jovens nos espaços da igreja se dá por “argumentos” nem sempre declarados, visíveis ou explícitos que se pretendem uma leitura autêntica, original, fundamental, pura de fé, mas que na verdade são marcados por sensibilidades culturais, raciais, de gênero, de classe, de sexualidade, de faixa etária, etc.
            Se a igreja quer promover a paz, se quer ser de fato ser “pacificadora”, precisa abandonar suas táticas de guerra, sua aliança com a “paz armada” vendida pelo Estado e pelas empresas privadas de segurança. Não aliar-se à paz do “Império Romano” é fundamental como primeiro ponto. A partir daí, construir outros caminhos, perceber que os/as jovens dentro e fora das igrejas têm encontrado seus próprios processos de sobrevivência.

Uma crítica-denúncia:
Não gosto de pessoalizar as críticas que faço. Em geral, estou mais preocupado em inventariar as práticas e os conceitos que nos movem. Essas práticas e conceitos estão presentes em muitos lugares e inclusive dentro de nós. Identificar num único governo, numa instituição, num único partido etc. o inimigo de nossa perspectiva pode ser danoso, porque pode nos cegar em relação às opressões que nós mesmos (re)produzimos. No entanto, venho a público dizer que, no sábado 5 de novembro de 2016, falei num evento ligado à Convenção Batista Brasileira (CBB) chamado Igreja Pacificadora. Na parte da tarde, as 4 falas previstas, que antes funcionariam como oficinas, seriam transmitidas ao vivo pela internet. A minha intervenção, a segunda a ocorrer (depois de uma fala sobre “violência e subjetividade”), foi sobre “violência e juventude”. Parece que minha fala não era o que alguns “setores” da instituição em questão esperavam ouvir, o que gerou um forte incômodo. Algumas pessoas à frente do evento resolveram então tirar do ar a gravação da transmissão ao vivo já realizada. Transmitiram normalmente a fala seguinte sobre “violência e infância” e não transmitiram a quarta e última fala, da professora Lília Mariano, sobre “violência e gênero”. Fomos avisados posteriormente do ocorrido, o que gerou bastante revolta na professora Lília, em mim e em nossos pares.

Resisti em fazer essa crítica pública pelos motivos que coloquei no começo dessa denúncia, mas tudo isso precisa gerar uma reflexão crítica e autocrítica. Como querer ser “igreja pacificadora” negando-se a ouvir vozes destoantes? Como querer promover “vida para a juventude” se os/as jovens são silenciados? Como querer combater a “violência contra mulher” se o debate de gênero é chamado pra conversa, mas ao mesmo tempo silenciado? Parece que a minha fala incomodou tanto que a única resposta possível no momento foi provar que o que dizia tinha mesmo razão de ser – a igreja promove a violência e está aliada a uma paz armada. O curioso disso tudo é que nada disso é novo, já fui membro de uma igreja ligada à CBB e já estive nessa posição difícil de querer promover bons debates, ventilar outras ideias e ser/sentir-me tolhido pela instituição. Neste sentido, não quero com essa crítica punir ou responsabilizar indivíduos que hoje se encontram nessas posições difíceis e carregadas de ambiguidades de agradar a “gregos e troianos”. Acredito que é preciso antes de tudo rever o que torna possível essa “difícil situação” de tentar fazer algo diferente “dentro e apesar da instituição”, mas de se ver preso pelos próprios limites institucionais impostos. Enfim, faço essa crítica-denúncia com o maior respeito possível às pessoas que me chamaram para contribuir com o evento, mas com um profundo lamento no “mais do mesmo” do qual a igreja-instituição em questão se vê armada. Que a CBB possa também se desarmar e promover vida para jovens, mulheres, negros/as, LGBTs, reconhecendo onde tem falhado enquanto instituição.    

quarta-feira, 15 de março de 2017

PAULO ROBERTO FOI MORTO UMA PRIMEIRA VEZ PELA POLÍCIA...


PAULO ROBERTO FOI MORTO UMA PRIMEIRA VEZ PELA POLÍCIA, UMA SEGUNDA VEZ PELO PODER MÉDICO, UMA TERCEIRA VEZ PELA MÍDIA E SUA MORTE ESTÁ AINDA NAS MÃOS DA JUSTIÇA

"Não julguem conforme a aparência, mas conforme a justiça" (Mateus 7:24)
[RESUMO PARA APRESESSADOS:
Nesta quarta há muita mobilização para atos necessários sem dúvida, mas gostaria de chamar a atenção para o caso desse menino, Paulo Roberto, morto em 2013 de maneira muito violenta (tortura) por policiais da UPP MANGUINHOS. Hoje, a partir das 11h, pessoas e grupos (convocadas por Mães de Manguinhos e Fórum Social de Manguinhos) estarão reunidos em frente ao Tribunal de Justiça do RJ, reivindicando justiça na ocasião da audiência que pode indicar alguma responsabilização do Estado ou simplesmente seguir afirmando que esse é mesmo o papel assassino/genocida do Estado em sua atuação normal.
Link para o ato-audiência:https://www.facebook.com/events/258115801307409/ ]
A quem pertence a luta pela justiça depois que um adolescente morre pelas mãos de agentes do Estado? Primeiramente, à sua mãe (Fátima Pinho) e suas companheiras de luta (Mães de Manguinhos e Fórum Social de Manguinhos). Em segundo lugar, cabe a todos/as nós, sociedade em geral - pessoas organizadas em grupos ou não -, reivindicar justiça e responsabilização do Estado.
Em outubro de 2013, Paulo Roberto foi morto por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora da favela de Manguinhos (Zona Norte, Rio, RJ). Na época, eu me lembro bem, fui a uma missa que celebrava a memória de Paulo Roberto e reivindicava justiça. A missa-encontro foi marcada pela emoção, pelo afeto, pelo choro e também por uma condução-reflexão altamente politizada de um padre progressista.
Matérias de jornal nos últimos anos mostraram que a perícia indicou a existência de espancamentos, mas os RELATIVIZOU em nome de especulações (que depois se mostraram falsas) sobre uso de substâncias tóxicas como "cheirinho da loló". Mata-se alguém (um adolescente!) a sangue frio e já se tem todo um aparato médico para garantir que a SUSPEITA e a CULPA da morte recaia sempre sobre a própria vítima. Sabemos o nome que dá sustentação a esse sistema médico-policial, RACISMO.
Hoje, 15 de março de 2017, às 11h30, a Justiça deve seguir com o julgamento do caso que indiciou à época 5 policiais. Precisamos rever tudo, a polícia sem dúvida precisa parar de matar com armas de fogo e com tortura, os médicos-peritos precisam parar de legitimar as mortes com laudos criminosos (quem se lembra da Ditadura Militar?), os jornalistas precisam parar de incriminar e enquadrar os moradores de favelas, os juízes e operadores da lei precisam parar de proferir sentenças injustas.
[não sei quem fez o belo desenho representando o Paulo Roberto, se alguém souber informe]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Cultura e racismo

Cultura e racismo.
A disputa no campo da "cultura" e dos "saberes" tem tudo a ver com uma crítica e revisão da ação do Estado em suas máquinas de guerra contra uma população específica no interior de um "todo mais amplo" da população. Como não conseguem ver que o racismo cultural/epistêmico é ele mesmo "condição de possibilidade" dos genocídios em curso no Brasil? Num país em que Cultura já foi (ainda é?) política de Estado pensada enquanto questão de Segurança Nacional. Num país em que se aponta cada vez mais a importância da questão das representações raciais nas novelas e outros registros midiáticos. Como não ver uma relação entre a produção da imagem que se constrói sobre um grupo com a produção da qualidade de vida desse grupo? O poder da ficção, da representação é enorme. Não é automático, causal, de uma "manipulação absoluta e total", mas é um poder considerável! E no entanto, parece que permanece "impensado" na trajetória de alguns...
Sobre os usos localizados das teorias.
Apontar o "essencialismo" só no outro indica o limite da crítica. Falar da reivindicação de "autenticidade" ou de "originalidade" apontando para um "passado" europeu isolado em si mesmo e já superado em termos dessa reivindicação, ao mesmo tempo em que se atribui sua permanência contemporânea (estando ela "correta" ou não) apenas aos grupos que se colocam desde o lugar das diásporas africanas me parece problemático. Isso é esquecer que a produção de autenticidade não ganha existência apenas através de discursos e falas explícitas nesses termos. Sua manutenção é bem mais "sutil", até certo ponto. A crítica ao "essencialismo branco" e à "episteme branca" é uma das condições de possibilidade de desarmar a maquinaria de morte do Estado.
PS: Perdão a fala em termos tão sei lá "iniciáticos", mas isso é parte de uma revisão de minhas próprias percepões teórico-políticas desses temas. A leitura de bell hooks tem sido nesse sentido muito importante.

[publicado por mim originalmente no facebook dia 14/02/2017, o contexto desse comentário é o debate em torno do termo "apropriação cultural"]

domingo, 11 de dezembro de 2016

Primeiramente, Fora UPP!

Primeiramente, Fora UPP!
Já soube de relatos de hoje e dessa madrugada, tristes, terríveis de assassinatos na CDD e no Alemão... Na CDD, mataram o filho da Tati Quebra Barraco, um horror, meu Deus...
Enquanto houver Justiça (instituição) genocida, vai haver muita injustiça...
As armas de luta contra esse sistema são justamente mostrar o que o torna possível e como ele funciona. Quanto mais informação tivermos sobre como funcionam as regulações da mídia e do Estado sobre a violência, melhor!
Sugiro seguir e/ou baixar apps ligados aos grupos:
[e muitos outros]

[postado originalmente no meu facebook]

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O OVO DO TECNICISMO CHOCOU = RACISMO

O tecnicismo sempre foi uma realidade, sempre embasou a expansão das escolas técnicas. O tecnicismo é alimentado por lideranças partidárias de várias matizes ideológicas. O tecnicismo é o modus operandi das escolas técnicas, que, por outro lado, recebem mais recursos (mais que as escolas comuns) pra funcionar e acabam sendo bem interessantes pros estudantes pra além da sua dimensão "técnica". Agora, a Câmara Federal aprovou a MP do Ensino Médio que aprofunda o tecnicismo, generalizando-o como regra pro E.M. comum. O discurso do "protagonismo juvenil" foi mobilizado/capturado pra fazer essa lei: "os alunos poderão escolher suas trajetórias e itinerários". A Base Nacional Curricular Comum é quem vai dizer o que importa no currículo, tudo centrado em 5 áreas, dentre as quais o estudante deverá escolher pra orientar sua formação: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional. Um detalhe importante: a escola do bairro não vai oferecer as 5 áreas, vai se concentrar numa ou noutra. Já sabe quem vai ter menos opções e recursos pra escolher a própria formação né? Isso mesmo, o "jovem protagonista", que não protagonizou essa lei; ao contrário, antagonizou ocupando mais de 1000 escolas em todo o Brasil. À repartição desigual de recursos na sociedade, Carlos Moore, escritor cubano-jamaicano, não dá outro nome: racismo.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Contra a medição da comoção

Ao pesquisar uma série de aspectos ligados ao racismo no Brasil e no mundo, encontrei o tema da "comoção" pelas mortes como algo bastante importante...

Por que nos comovemos mais com a morte de uns do que com a morte de outros? Essa é uma pergunta que critica a medida que se usa geralmente para lamentar/chorar/se compadecer/se solidarizar mais com uns do que com outros. O problema é que a "medida da comoção" que em geral utilizamos não é vista como uma medida. A comoção mobilizada cotidianamente nos discursos que se dispersam pela sociedade via grandes veículos de comunicação (rádio, jornais, tv) e via rede de compartilhamento instantâneo de informações (internet/telefonia móvel) é em geral vista como natural, evidente. Assim, faria todo sentido, por um lado, se comover pelas tragédias envolvendo famosos, e, por outro lado, não se comover com os anônimos. Na verdade, a questão da fama e do anonimato não são os únicos elementos aí...

Me lembrei disso tudo por causa da tragédia ocorrida nesse dia 29/11/2016: a queda do avião com a equipe da Chapecoense que matou mais de 70 pessoas. Junto-me aqui às milhares de pessoas que se manifestaram em luto por essa tragédia e peço a Deus que console as famílias e os amigos dos que se foram.
Nesse dia trágico, a imagem de uma campanha contra o genocídio da juventude negra veio à minha mente: a campanha dizia que todos os dias era como se caísse um avião lotado com 82 jovens negros (o número de tripulantes reais - 77 - e o dos "tripulantes" metafóricos que perdemos todos os dias se aproximam muito, por isso da associação). Daí, pensei novamente: por que não nos comovemos com essas mortes? Uma vez mais repito, não se trata de medir a comoção, mas justamente de questionar a medida da comoção.
A ideia não é moralizar a comoção de ninguém, mas, ao contrário, perguntar: por que medimos a comoção? Por que no dia-a-dia não nos lamentamos pelas mortes dos jovens assassinados no Brasil (77% deles são negros) assim como lamentamos a morte dos jogadores e jornalistas nessa terrível tragédia?

A resposta tem a ver com "visibilidade", tem a ver com o que enquadramos como "vidas", tem a ver com um racismo que estabelece as condições de nossa percepção sobre "quem merece viver" e "quem merece morrer".

Este vídeo da Campanha da Anistia Internacional #JovemNegroVivo é bem interessante na imagem que ele cria em torno da (in)visibilidiade dos jovens mortos. De certa forma, eles já não contam como "vidas", como "vivos" antes mesmo de serem assassinados. Para a sociedade, uma espécie de "morte em vida", "morte social", ou vários outros termos possíveis, tudo efeito de julgamentos de valor baseados em critérios sociais e raciais. Essas vidas são assim "marcadas para morrer", não apenas pela ação direta da polícia, do Estado, etc. mas também a cada vez que alguém legitima e diz por aí "tem que morrer mesmo".





Aproveito também para citar um texto da Judith Butler (Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto?), que ajuda a pensar justamente essas questões em torno da comoção, do luto, do racismo, etc.:

"A condição compartilhada de precariedade conduz não ao reconhecimento recíproco, mas sim a uma exploração específica de populações-alvo, de vidas que não são exatamente vidas, que são consideradas “destrutíveis e “não passíveis de luto”. Essas populações são “perdíveis”, ou podem ser sacrificadas, precisamente porque foram enquadradas como já tenso sido perdidas ou sacrificadas; são consideradas como ameaças à vida humana como a conhecemos, e não como populações vivas que necessitam de proteção contra violência ilegítima do Estado, a fome e as pandemias. Consequentemente, quando essas vidas são perdidas, não são objeto de lamentação, uma vez que, na lógica distorcida que racionaliza sua morte, a perda dessas populações é considerada necessária para proteger a vida dos “vivos”."

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

ATUALIZAÇÃO SOBRE O IFRJ E UM COMENTÁRIO POLÍTICO-PEDAGÓGICO

[25/10/2016]

Primeiramente...Fora UPP!
Alguns campi (Realengo, Caxias, Nilópolis, Paulo de Frontin, São Gonçalo e...) já têm ocupações de estudantes (que implica numa "greve de alunos" + ocupação física total ou parcial do campus). Hoje, na Assembleia de Servidores (docentes e técnicos + estudantes acompanhando, dando informes e dialogando) no Campus Rio de Janeiro, a maioria votou pela greve a partir do dia 28/10.
Hoje, os estudantes do meu campus (Paracambi) começaram sua ocupação também, aderindo a um movimento nacional que já envolve mais de 1000 escolas.
Muito interessante que antes de realizarem a ocupação e também já durante a ocupação (iniciada hoje), os estudantes de Paracambi vêm demonstrando uma preocupação democrática em envolver e acolher a perspectiva de todos/as - há alunos a favor e há alunos contra a ocupação, mas a maioria votou a favor. Todos/as acreditam que é preciso mobilizar a sociedade e a própria escola para reivindicar mais e não menos direitos. A pauta contra a PEC 241 e contra a Medida Provisória da Reforma do Ensino Médio parece ser um consenso, embora também reconheçam que um esforço múltiplo (para "os de fora" e para "os de dentro") de conscientização a respeito dos temas. O que não é consenso é a maneira de lutar. É bonito ver a preocupação dos/as estudantes em pensar uma luta nacional a partir de demandas específicas da realidade local.
Sigamos todos/as/xs juntos nas lutas!

NOVAS ALTERAÇÕES NA LDB

(Novas alterações na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9.394/1996) via Medida Provisória do Ensino Médio n. 746/2016)
[não vou comentar língua estrangeira, artes, música e educação física, pois não tenho acúmulo]
Sobre o Ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasileira:
Pelo que vi, está mantida a obrigatoriedade. Revogaram a redação do Art. 26 – alterado pela da Lei 10.639/2003 –, mas mantiveram o Art. 26-A – alterado pela Lei 11.645/2008 –, que soma o que diz na Lei 10.639 com a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura dos povos indígenas brasileiros.
Sobre Filosofia e Sociologia:
O Inciso IV do Art. 36 – "serão incluídas a Filosofia e a Sociologia como disciplinas obrigatórias em todas as séries do ensino médio. (Incluído pela Lei nº 11.684, de 2008)" foi excluído.
Isto, por si mesmo, representa um retrocesso enorme, vide um debate e uma luta de décadas por garantir a presença efetiva desse espaço e desses saberes. No entender dessa luta pela inserção das disciplinas de Filosofia e Sociologia, uma abordagem desses conteúdos a partir de temas transversais em outras disciplinas, não era suficiente.
Pessoalmente, não penso que Filosofia e Sociologia significam necessariamente o lugar por excelência do pensamento crítico, autônomo, etc. No entanto, podem ser excelentes espaços de disputa pelas verdades distribuídas socialmente. A perda oficial desse espaço é um retrocesso.
Para além da perda oficial desse espaço, já existe o silenciamento dessas disciplinas no dia-a-dia escolar. Em geral, nos colégios estaduais, essas disciplinas tem um tempo (45 ou 50 minutos...) no 1o e 2o ano, e 2 tempos no 3o ano. Nos IFs, a maioria deles oferece apenas 1 tempo de aula em todos os anos do ensino médio. A hierarquização permanece não como algo inquestionado, mas como algo de fato defendido, inclusive por professores de diversas áreas.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Sou professor de filosofia...

[22 de setembro de 2016]

Sou professor de filosofia.

Ontem, numa aula de 8o período do Ensino Médio Técnico (onde leciono são 4 anos de E.M. dividos em 8 períodos), conversávamos e debatíamos textos sobre "trabalho". Teve um momento muito espontâneo e bonito em que contrapondo a ideia do trabalho-sacrifício ao trabalho-prazer, perguntei se os estudantes poderiam dar algum exemplo de prazer no trabalho. Muito prontamente, um aluno disse apenas "você", o que gerou alguns risos obviamente. Aí ele completou dizendo que "eu obviamente tinha escolhido fazer algo de que gostava". Realmente, a educação, o ensino de filosofia, mexer com pensamento e vida de uma maneira super colada ao tempo presente junto aos/às estudantes, é algo que me dá prazer. É bonito mesmo isso. Tenho na minha escola, 2 tempos de aula com cada turma, mexo com diferentes temas (ementas) por semana (uns 6 mais ou menos). Na maioria das escolas públicas de Ensino Médio (sejam estaduais e mesmo nas federais), as aulas de Filosofia e de Sociologia têm apenas um tempo por semana cada uma. O tecnicismo, o produtivismo é a regra. Eu realmente vivo "fora da realidade" na escola em que leciono, as "condições trabalhistas" (desde o tempo de contato com os alunos até as condições salariais) são de fato muito boas. Ainda assim, o tecnicismo é a regra. Parece que a tão disputada inclusão de "filosofia e sociologia" no Ensino Médio (uma luta de décadas), que culminou na inclusão dessas disciplinas como obrigatórias e não apenas como "temas transversais" teve agora uma reviravolta com o tratoramento dessa Medida Provisória, que só expressa o tratoramento e fechamento (ou abertura) produtivista de sempre dos administradores do poder (de direita e de esquerda). Não tenho dúvidas, a lógica dada é de escravização, domesticação, embrutecimento, e nunca de autonomia e emancipação. A Medida Provisória e sua "reforma no ensino médio" é o modus operandi dos governos, só aperfeiçoa e aprofunda ainda mais a lógica colocada em prática todos os dias. Se, por um lado, dizemos que "escola sem pensamento crítico não é escola", por outro, é preciso reconhecer que uma das funções atuais da escola é fazer a manutenção do fracasso (que é o sucesso) do sistema de "formação cidadã" no país. O pensamento segue apontando alguns caminhos para mim mesmo e quem mais quiser:
- parar de atribuir a algumas pessoas, a algumas figuras políticas, a fonte de todo o mal (isto serve tanto "à direita" quanto "à esquerda")
- reconhecer que o que nos move são as maneiras de pensar os diferentes problemas da vida
- reconhecer que sempre há relação de forças em jogo precisa nos fazer ser menos reféns e mais hóspedes da decisão política, ou seja, precisa ampliar nossa liberdade, nossa possibilidade de escolhas e não reduzi-las ao "eterno retorno do mesmo"
- enfim, sem crítica e autocrítica, vai ser bem difícil...
- ah, o prazer, encontrar o prazer na interação com as pessoas a quem você está prestando um serviço é um caminho!
Sigamos!

RELEMBRAR E REIMAGINAR

por Marcos Monteiro em seu blog. 

Amanda distribuía o pão e o vinho e banhava o sorriso em lágrimas, muitas lágrimas. Havíamos acabado de dançar a ciranda da inclusão no circo da vida e o pastor Wellington transformou Amanda na síntese do nosso encontro “Reimaginar”. Era a celebração de encerramento, uma Ceia do Senhor, e a torrente de lágrimas de Amanda umedecia os nossos olhos e as nossa almas. Na nossa sociedade rotuladora, Amanda carrega uma etiqueta, e toda etiqueta tem marca e preço. A sua marca é “lésbica” e o preço que paga é toda a sua corporeidade dolorida, deformada por olhares enviesados e marcada a ferro e fogo por estigmas. O encontro era a oportunidade de nos livrarmos de todos os rótulos e de assumirmos a beleza da nossa humanidade plural e diversa. A Ceia era lembrança e partilha do corpo de Jesus, também alvo de olhares oblíquos e também lugar de estigmas, por ter partilhado sua vida com pecadores, publicanos e prostitutas, proscritas de seu tempo.

Quando conheci Amanda não sabia dos seus rótulos, somente percebia que ela não parava de andar, não parava de trabalhar e não parava de sorrir. Amanda nunca dessorria, nem mesmo para resolver problemas, e problema é o que mais tem na vida e na realização de encontros. Amanda é gerúndio do verbo amar, no feminino, e amada é o particípio passado. Amanda está sempre transbordante de amor e, por isso, recebe de volta muito amor também. Sente-se muito amada inclusive por sua igreja que a excluiu. Mas, por causa de sua marca não pode participar da Ceia. Mas no “Reimaginar” pode, com seu sorriso cheio de lágrimas, relembrando o movimento de Jesus e reimaginando a sua igreja.

Fomos chegando todas e todos pequenininhos, naquela fazenda perto de Brasília, no coração do Brasil, pisando o chão devagarinho, como Ronilso Pacheco avisou e como ele está acostumado a fazer. Carrega na pele o último tom do preto e denuncia, com o pé nas ruas e a Bíblia na mão, racismos epistemológicos, culturais e ambientais. A juventude negra está sendo exterminada, pretos, pretas e pobres são empurrados para as periferias do saber e para territórios cada vez mais precarizados. São os últimos a entrarem na universidade e os primeiros na cadeia, nesse disangelho racial perverso que as igrejas não percebem e não querem perceber.

O Deus da igreja não parece mesmo ser o Deus da cidade. As práticas das igrejas não são proféticas e as igrejas confundem a sua mobilidade com a mobilidade de Deus, além de criarem um Deus à sua própria imagem, masculino, branco, colonizador, todo poderoso. Joerg Rieger nos desafia a enxergar na cidade o Deus do outro lado, do lado dos marginalizados e proscritas, em sua diversidade e fraqueza. Um Deus negro, segundo Ronilso Pacheco e Sarah Thompson, torna-se símbolo sagrado acima de qualquer preconceito, e o feminino em Deus desautoriza a desigualdade ontológica entre o homem e a mulher que é o balizamento sagrado do machismo e da violência. As mulheres desorganizadas, um recorte feito por Ivone Gebara, carregam um Deus que não é nem o Deus da Igreja nem o Deus da teologia. Presente nos eco-sistemas que constituem a cultura ocidental, Deus é sempre lugar de embate teológico e político. Uma teologia feminista ou negra ou queer, recuperam o caráter libertador de um Deus cuja misericórdia o faz incluir sempre aquele e aquela que são alvos de discriminação, exploração e opressão. Para Joerg Rieger precisamos discernir o inimigo, esse capitalismo sistêmico, a quem todos esses procedimentos danosos interessam.

Naquele ambiente de exuberância de estrelas, nuvens, árvores, pássaros, águas e insetos, vislumbramos possibilidades de novos mundos com novas igrejas. A nossa própria diversidade era janela para lembranças e esperanças. Devagarinho fomos conversando, cantando, comendo, bebendo, dançando, participando de palestras, oficinas, noites culturais, e a palestina de Jesus de Nazaré lá no passado parecia uma recordação capaz de mudar, quem sabe, o destino dos palestinos de hoje. As antigas escrituras sagradas foram pretexto para se ocupar terras sem escrituras, e Nancy e Odja nos desafiavam o tempo todo a ler a Bíblia pelo olhar feminista. Se Jesus de Nazaré, a sofia de Deus, foi o corpo que enfrentou o império romano até à morte, todos os corpos oprimidos passam a ser lugar de enfrentamento, capaz de derrubar a lógica dos novos impérios, a lógica do Capital. As igrejas, infelizmente, transformaram-se em lugar de opressão do corpo, proibindo o prazer e deserotizando a vida, legando à juventude uma sexualidade miserável, caminho de culpa e de dor. As pessoas são excluídas das igrejas, nunca por exploração ou por opressão, ou qualquer outro tipo de injustiça ou violência, mas por quebrarem normas sexuais restritivas.

Entre conversação, oficinas e festivais, de 7 a 11 de setembro de 2016, foram cinco dias impactantes. O Reimaginar, de tantas protagonistas, foi resultado da imaginação, articulação e mobilização de Flávio Conrado, aquele que costumo dizer que caminha com uma ideia na cabeça e um laptop na mão. Na última mesa, Odja, pastora da Igreja Batista do Pinheiro, igreja que foi excluída da Convenção Batista Brasileira por decidir em assembleia aceitar pessoas homossexuais, LGBTTI, no seu rol de membros (excluída pela ousadia de incluir), nos trouxe em reflexão bíblica a lembrança do direito que temos de ler a Bíblia na liberdade da nossa compreensão. Estava ao lado de André Musskopf, teólogo luterano, homossexual, que nos desafiava com o seu humor inigualável a compreender da mesma maneira que a Bíblia pertence a todas e todos, e deve ser interpretada em comunidade. E então veio o momento de encerramento, dirigido por Wellington, marido de Odja, também pastor da mesma igreja batista.

A sua palavra desafiadora colocou Amanda e a Bíblia como principais referências para que nos colocássemos no mesmo círculo, de mãos dadas, enquanto nos preparávamos para a ceia. Ciranda da solidariedade profunda, em que cabíamos todas e todos, quaisquer que fossem as etiquetas que carregássemos em nossos corpos. E Amanda foi chamada para começar a distribuir o pão e o vinho. Transferida do espaço de exclusão não para o discurso triunfalista, mas para a tarefa humana e humanizadora do serviço e do cuidado, Amanda banhava o seu sorriso e a todas e todos nós com suas lágrimas. Coloquei Dom nos braços e fui buscar o meu pão e o meu vinho. Dom é um menino de três anos, filho de um amigo, Messias, e uma amiga, Elba. Dom não podia tomar vinho, por ser criança, mas tomou das mãos de Amanda um grande naco de pão, criança tem o direito de não medir, e saiu comendo e repartindo o pão da lembrança e da esperança, comigo e com muita gente, como sempre fazia Jesus de Nazaré.

sonhar a desmilitarização

[13 de setembro de 2016]

Essa noite sonhei que andava aqui por Paracambi, não sabia se descia ou não pro Rio, tentava descer mas não conseguia... Voltava em direção à Fábrica, não era exatamente na minha escola, mas se assemelhava a um pátio escolar coberto (diferente portanto do que tem na minha escola...). De repente, policiais - ou algum tipo de guarda, de batalhão, de sei-lá-o-quê - atacavam as salas de aulas ainda no começo da manhã e jogavam bombas de gás lacrimogêneo. Em poucos segundos, todos se espalhavam pelo pátio coberto batendo aquele desespero. Algo em especial me chamou a atenção, algumas crianças/adolescentes tinham condições especiais, algum tipo de deficiência e tal. Eu tentava interagir com elas, ajudá-las. Era tenso. Muito rapidamente a cena se desfazia e eu começava a me indignar profundamente não com a cena em si, mas com a naturalidade com que a sociedade lidava com a coisa. A justificativa estava muito bem armada já, a intervenção tinha que fazer frente a um mau comportamento ou algo assim. Enfim, hoje vou nas parolimpíadas com minha escola, vai ser uma "visita técnica" histórica com quase 600 pessoas presentes (entre estudantes, servidores e estagiários). Provavelmente, a realidade visível vai ser bem diferente, as armas vão estar bem ostentadas pelo Exército... mas "nada" vai se passar. O que me incomoda não é tanto essa estrutura visivelmente ordeira e calma, o que me incomoda é essa realidade que eu vejo em sonho e que sei ser bastante real no cotidiano de muitas escolas. Precisamos desmilitarizar a sociedade e a educação já.

sábado, 9 de julho de 2016

Acusar os acusadores?

Há uns dias compartilhei essa frase do Nietzsche: "Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores". Ontem tava pensando o quanto que "acusar os acusadores" é algo muito perigoso, arriscado, problemático. Se o consenso estabelecido já institui algumas autoridades capazes de acusar quase livremente quem quer que seja, então o ato de criticar as autoridades instituídas com o fim de "acusar" vai ser em geral mal visto, visto com suspeita, visto com acusação. Quem ousa acusar os acusadores? Quem ousa criticar administradores da vida que têm o monopólio da acusação? Pensemos na Polícia, que tem o poder de identificar e solicitar a identificação de indivíduos e grupos, regular suas ocupações e atividades, seus movimentos, seus passos, seus gestos, sua cor, seu gênero, sua classe, etc. Pensemos também no Judiciário, nas instituições escolares, universitárias, hospitalares, etc. Todos estão armados para serem "bons acusadores". Ir contra isso é, no mínimo, suspeito. Lembro de um pedaço da Bíblia que falava que nossa justiça tinha que ser "mais justa" que a dos "mais justos". "Mais justos" como referência aos fariseus, que podem aqui ser pensados como um grupo mais ou menos instituído e frequente usuário do poder acusatório sobre os pequenos desvios e pequenos detalhes da conduta de cada indivíduo. Quando Jesus fala que nossa justiça deve exceder a Justiça instituída, penso numa justiça não acusatória, uma justiça que recusa acusar. Como levar isso adiante, para além de um registro individual?

[coisas que a gente posta meio do nada naquela rede social fechada...]

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Carta ao Pastor Ezequiel Teixeira

CARTA AO PASTOR EZEQUIEL TEIXEIRA, NOVO SECRETÁRIO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL E DIREITOS HUMANOS
Ao pastor,
Meu nome é Ronilso Pacheco, e sou evangélico também. Soube com preocupação da sua nomeação para esta importante pasta. Preocupação porque o senhor sabe que não deveria estar aí, e sabe mais ainda que só chegou aí fruto de uma manobra política.
Isso já seria motivo suficiente para o senhor, sendo evangélico de fato, não aceitar o convite para assumir o cargo.Uma vez que o convite não está vinculado a sua experiência, mas a interesses do jogo de poder, se o senhor aceita, é porque também está interessado no jogo de poder e não no que pode servir a sociedade a partir daí.
Gostaria que o senhor soubesse que esta Secretaria não é a sua Igreja, e que, portanto, sou um dos também evangélicos que estarão permanentemente de olho na sua gestão e em qualquer tentativa de beneficiar interesses que pensem apenas nas igrejas e nos evangélicos, privando a sociedade (sobretudo os grupos sociais mais marginalizados e destituídos de direitos) de voz e de espaço digno na esfera pública.
Não esqueci o seu apoio à redução da maioridade penal, o que constitui uma vergonha, vindo de um pastor, que ignorou o ECA e semeou a desesperança na recuperação de adolescentes que cometeram ato infracional.
Não esqueci o seu vergonhoso voto que negou o reconhecimento do conceito de família para pessoas do mesmo sexo, chamando de "desarranjo familiar" e de "anarquia". Em qualquer Estado sério, o senhor não teria legitimidade para ocupar esta secretaria, uma vez que sequer tem a humanidade necessária para reconhecer que a experiência familiar não se resume ao seu mundo, à sua religião e à sua própria família.
Mas aí o senhor está. Então, pastor, vigia, mas vigia muito. Nós vamos acompanhar seus passos, suas medidas, suas decisões, suas entrevistas, suas declarações.Vamos exigir seu posicionamento toda vez que ignorar direitos de outros, em nome de interesses seus e do seu grupo. Vamos querer audiência com você, vamos te cobrar. Se não nos receber, estaremos te esperando na porta da sua Igreja. Seremos como João Batista, como Jeremias, e não daremos trégua.
Por fim, minha oração pelo senhor é que o senhor perca o sono. Que a violência que acomete os pobres, que as violações do Estado, que os direitos humanos pisoteados nas favelas e nas periferias não saiam da sua consciência e não lhe deixem dormir em paz até que o senhor queira dar a elas a devida atenção, como a viúva pobre, como Rispa.

Rio de Janeiro, 16 de Dezembro.
Ronilso Pacheco 


(extraído do facebook)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Indústria cultural/racismo cultural

Tô eu aqui numa luta enorme com o conceito de Indústria Cultural, pra poder trabalhá-lo legal com os estudantes. É interessante e tal, mas em si mesmo e sobretudo no efeito que seu uso gera, acabo vendo um tipo de crítica social muito conservador. Ainda assim, a crítica marxista por ele repatriada ajuda a pensar a cultura como algo não neutro, mas sempre fruto de investimentos pesados. A máquina industrial que investe na e produz a cultura é mesmo um "fato inegável".
Mas vejam esse trecho de Adorno/Horkheimer: "O amor funesto do povo pelo mal que a ele se faz chega a se antecipar à astúcia das instâncias de controle". Isso me remeteu à crítica que Frantz Fanon faz ao pensamento que acaba por legitimar a colonização ao sugerir a existência de um "complexo de inferioridade" do colonizado, isto é, uma predisposição em ser colonizado que seria inerente ao colonizado. Obviamente, Fanon mostra de que maneira essa perspectiva é racista. Aqui, um encaminhamento possível seria pensar o "efeito Indústria Cultural" no pensamento social como (re)alimentador de todo um racismo cultural. Tirem suas próprias conclusões.  

(Dia 13 de novembro de 2015, no Facebook)

Punitivismo/moralismo de #meuamigosecreto?

E se a tendência em ver punitivismo em tudo já não for uma estratégia punitivista? A crítica ao "punitivismo" das feministas pode acabar sendo lida como tentativa de desautorização (pra não usar o termo "silenciamento") de uma luta que é em si mesma um acontecimento incomensurável. Ainda mais quando essa crítica "bem intencionada" vem do lugar "masculino". É preciso ter muito cuidado e fazer muita autocrítica para emitir opiniões contra ou a favor um movimento que não precisa da minha voz. Digo isso enquanto homem e branco e aqui já cometi um "deslize" por me manifestar,  mas achei necessário expressar o quanto estou aprendendo no meu canto com a campanha #meuamigosecreto. Um acontecimento! Negar sua força seria, no mínimo (no mínimo), ingênuo. Como não existem inocentes... erra só quem quer!

(27 de novembro de 2015, no facebook)

Retorno

Tenho andado distante da blogosfera. Parece que fui engolido pelas ferramentas mais dinâmicas do Twitter e sobretudo do Facebook. Tenho também escrito algumas coisas autorais e mais extensas para a Novos Diálogos. Como muita coisa (micro -textos) que posto no facebook e que julgo interessante se perde, vou tentar usar de novo este espaço para um registro dessas interações que ocorrem nesses outros espaços.

sexta-feira, 14 de março de 2014

uma oração libertária

Uma espiritualidade/vida libertária caminha também 

segundo a seguinte oração: "Jah, me livra de ser policial de 

mim mesmo e dos outros, só por hoje, amém!" 



Nota 1: A dimensão do "só por hoje" dos AA é fundamental, 

pois todos os dias somos convidados a "policiar".



Nota 2: Pra quem não acompanha o papo sobre "ser 

policial", não tem a ver apenas com a instituição policial, 

mas com a sociedade como um todo.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Autenticidade: uma forma de racismo

"A autenticidade, uma das principais figuras conceituais da colonialidade, serve como fundamento de uma espécie de 'racismo ético' (diante da dificuldade política e antropológica com o racismo étnico), corporificado na tentativa de se impor uma ética mundial ou uma arquitetura protoeuropeia de valores universais."

(SODRÉ, Muniz. Reinventando a educação: diversidade, descolonização e redes. Petrópolis, RJ: Editora Vozes Ltda, 2012, p. 51)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

José Carlos Lopes Júnior (19 anos), presente!


LUTO


Nos unimos em oração à Ana Paula Lisboa, que perdeu seu irmão através da ação do Estado Brasileiro.



Segue a mensagem dela contando o ocorrido:



"Obrigada a todos pelas mensagens, pela força que com certeza estamos precisando.

Hoje, dia 12 de fevereiro, meu irmão faria 19 anos. Foi só um tiro, na nuca, ele de mãos pra trás e ajoelhado. Não vi o corpo, mas ainda estava aqui quando cheguei. E só estava porque minha família e os moradores do entorno impediram que os policiais da UPP do Morro do São João descessem com o corpo antes da perícia chegar.
De saldo três ônibus incendiados, todo o comércio fechado, muito grito, spray de pimenta e o Bope desrespeitando tudo e a todos.
Amanhã aparecerá nesses programas do meio dia que mais um jovem foi morto e que ele tinha passagem pela polícia, e tinha, por tráfico. Mas antes mesmo das passagens ele já era meu irmão, ia ser pai em breve, era filho da minha mãe e do meu pai. Era tanta coisa complexa que eu não consigo resumir nesse post. 
E principalmente tinha nome: José Carlos Lopes Júnior. 
#SaudadesEternas "

Mais cedo, já noticiando a morte do irmão, Ana Paula também publicou no Facebook:

"Muito pior que a morte é a morte violenta, é a morte matada. Não morre só mais um jovem negro e pobre. Morre eu, morre a família toda. Meu irmão morreu. Como pode alguém morrer no mesmo dia em que nasceu?"


A notícia no Jornal O DIA saiu com a seguinte manchete: 

'Fizeram ele ajoelhar e atiraram na cabeça', diz pai de jovem morto no São João.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Raimundo Felipe da Silva, presente!

Hoje foi o ato de despedida, o sepultamento do Sr. Raimundo Felipe da Silva, pai da minha amiga Fátima Silva, no Cemitério do Catumbi (Rio de Janeiro, RJ).
Fátima, através do amigo Jorge William, fez um agradecimento aos que estiveram presentes no dia de hoje. Reproduzo aqui um trecho de seu registro sobre um homem que lutou e dividia tudo com todos, como bem disseram durante o velório.

“Na ocasião, celebramos e memoramos a vida e dedicação de um homem marcado por uma trajetória de engajamento político e de um militante efetivo em várias frentes, dentre as quais, esteve atuante durante o processo de reestruturação do Partido Comunista Brasileiro, o que o levou a ser preso e interrogado no antigo DOPS no ano de 1964, sob acusação de ser comunista. Foi também participante na organização de sindicatos, e ainda, dedicou-se em mobilizações para garantir melhorias e desenvolvimento de comunidades e na fundação de várias associações de moradores na zona oeste carioca. 

Foi um homem simples, de origem nordestina, vindo para o RJ como retirante, tendo como formação acadêmica apenas o 4º ano primário incompleto. Casou-se e constituiu uma família de 6 filhos, tendo como fonte de toda renda familiar a profissão de pedreiro, mas insistente em promover o estudo e formação dos filhos e filhas. Em meio a tantas limitações e dificuldades, lutou com grande empenho e esforço por mais dignidade e igualdade de condição de vida para os mais pobres e oprimidos, acreditando piamente na transformação social e da diminuição das desigualdades, por meio da justiça e da participação popular e democrática. Foi a partir de uma dinâmica de leituras e de sua formação politico-ideológica de esquerda, que tornou-se uma liderança e um referencial para muitos jovens, que vieram a ser dentre muitos doutores e de carreira política ativa.

Dentre algumas reminiscências e falas feitas por familiares, amigos e companheiros de lutas, foi lembrado, com destaque, que uma das poucas instituições que devotava seu respeito e admiração até o fim de seus dias – foi o MST - cuja bandeira esteve aberta na capela e durante todo o cortejo funeral. Outro gesto memorável e de grande emoção, foi quando uma de suas filhas, sugeriu que fosse cantada a canção “Pra não dizer que não falei de flores” (Geraldo Vandré), considerando esta, uma mensagem que simboliza a história e trajetória de seu pai, o “Raimundão”, como era considerado por todas e todos.

Agradecemos grandemente por nos permitirem partilhar este singelo relato apenas como um ato simbólico em homenagem a homens e mulheres que trazem consigo um referencial de lutas e convicções em favor de seus semelhantes.


Fraternalmente,Fátima”


Hoje, seu Raimundo estava coberto de flores...