sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O Evangelho não é uma ideologia da classe média.

Se observarmos atentamente a estrutura social latino-americana, notaremos imediatamente que há algumas camadas que nós não estamos alcançando com a mensagem de Jesus Cristo: a aristocracia detentora da propriedade das terras ou a alta burguesia industrial, as elites culturais (a “intelligentsia”), os operários organizados, amplos e determinados setores estudantis e as massas camponesas. Somos, ou nos tornamos rapidamente, igrejas da classe média. Houve um momento na América Latina em que se pensou que as classes médias tinham um papel chave a desempenhar no futuro. O curso dos acontecimentos trouxe uma decepção nesse sentido. Por um lado, a classe média é um setor não muito grande da população: 13% na Bolívia, 15% no Brasil, 39,7% na Argentina, 31% no Uruguai. Por outro lado, ela optou por um caminho de dependência mental e estrutural em relação às oligarquias, a tal ponto que um observador, outrora (1955) entusiasta do papel da classe média, escreve menos de uma década depois (1964): “A classe média é cada vez menos um fator de mudança social e entra a fazer parte da vasta parasitologia latino-americana”. Serão outros grupos ou classes sociais que promoverão a mudança. E a esses precisamente, é que a mensagem do Evangelho não está chegando. Por quê? Pregamos uma mensagem que convida os homens ao arrependimento e a nova vida em Cristo. Nossos sermões e folhetos pedem aos bêbados que deixem o álcool, aos ladrões e delinqüentes que deixem o mau caminho, aos filhos desobedientes que respeitem aos pais. Prometemos aos neuróticos que encontrarão paz espiritual e aos desequilibrados psíquicos que acharão a tranqüilidade. E o que diz a nossa mensagem aos exploradores de indígenas, aos capitalistas “tubarões”, aos políticos venais e corruptos, aos políticos sujos? Do que devem arrepender-se os “bons meninos” (isto é, os “moços ricos”) das nossas igrejas? Não é um pecado, ou a manifestação do pecado, essa indiferença cômoda diante do sofrimento das massas do nosso continente ou de certos setores esquecidos? Entraram na moda “os almoços presidenciais” e as reuniões com autoridade.
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Os evangélicos alguma vez levantaram nessas reuniões uma voz profética? Não estaremos antes procurando grangear as riquezas e os privilégios de corações não arrependidos entre os poderosos, garantindo-lhes que o Evangelho produzirá operários que não façam greves, estudantes que cantem corinhos em vez de pixar paredes com dísticos de luta social, guardiãs da paz ao preço da injustiça? Não estranhemos, então, que aqueles corações sensíveis à dor do nosso povo, à miséria, à injustiça, ao invés de serem sacudidos pela mensagem revolucionária de Cristo, que muda o coração mais ímpio, saiam atrás dos agitadores de qualquer ideologia em moda. Não admitiremos então, que em certos países tantos jovens evangélicos se tenham tornado guerrilheiros e não queiram saber de mais nada com a igreja. Sobre quem cairá o sangue deles?
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Mais um exemplo da nossa falta de presença e encarnação em toda a realidade latino-americana é a nossa atitude diante do problema da população. A fome e o sofrimento têm a ver com o pavoroso crescimento da população. Mas esta não é a única causa, para sermos honestos. È também a péssima distribuição da riqueza e a estrutura injusta. Muitos evangélicos se envolveram com entusiasmo nos programas de promoção do controle de natalidade como forma de trabalho social. Isso, em minha opinião, é louvável. Mas seria bom ver igual entusiasmo para combater as outras causas da fome. Nós não a vemos.Creio que a razão é simples. No controle da natalidade são “os de baixo” que são afetados. Se não gostam, não nos inquieta muito. No caso de distribuição injusta da riqueza ou das estruturas obsoletas, nossa ação ou nossa opinião incomodaria “aos de cima”. Temos falado e escrito a respeito de João Hus, ou João Wiclife, precursores evangélicos da Reforma. Já percebemos até que ponto o trabalho evangélico desses homens esteve vinculado a esse sentimento nacional (o boêmio e o inglês) que lutava contra o imperialismo daqueles dias? Por que a mensagem deles deitou raízes entre as massas? É que não era um evangelho desencarnado.Com tudo isso não queremos dizer que seja pecado pertencer à classe média. Queremos dizer que a mensagem de Cristo não pode ser reduzida ás preferências, conveniências e interesses da classe média. Nossa “encarnação” na totalidade da sociedade latino-americana nos levará a sentir o inconformismo dos estudantes, a ânsia dos camponeses e operários por justiça e pão, o anti-americanismo das elites cultas. Porque por todos estes Cristo também morreu, pois não podemos admitir que estejam “sociologicamente predestinados” a não ouvir o Evangelho.
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(retirado do texto A Responsabilidade Social da Igreja, de Samuel Escobar, veja na íntegra aqui)

2 comentários:

Samuel disse...

Talvez o Jovem rico situado em Mt.19:16-24 seja o retrato de nossa classe média Evangélica do país. Vemos apenas tristeza e indiferença quando se propõe entre nós a práxis do Evangelho Integral.
Esta “encarnação” na totalidade da sociedade latino-americana eh urgente. Enquanto se canta e se dança de olhos fechados, tem gente morrendo de fome por todos os lados.

Parabéns pelo texto profeta. Isto eh teologia. Isto eh cristianismo...

Pedro Grabois disse...

Ae Samuca. Bom receber tua visita aqui! Vc pode ler outros textos desses autores lá no site da faculdade de teologia integral...
abração,
Pedro