domingo, 25 de maio de 2008
O PODER DA ARTICULAÇÃO
terça-feira, 20 de maio de 2008
BALADA PARA OUTRAS ISABELAS
"BALADA PARA OUTRAS ISABELAS
lisieux
Olá! Eu vim lhe contar
um pouco da minha história...
Peço atenção, seu "dotô",
um instante, não demora...
Meu nome não é Isabela
nem "caí" de uma janela
do quarto no sexto andar...
(será que pensaram, os insanos,
que ela sabia voar?)
Não moro num prédio equipado,
não tenho motos, brinquedos,
nem piscina pra nadar...
Eu brinco, às vezes,
nas poças de chuva,
com gatos, latinhas,
bolinhas de gude...
isso quando não tenho
que a mãe ajudar...
Não sei dançar, e não brinco
como menina educada,
porque aprendi, desde cedo,
lá no morro onde nasci,
que não importa o sexo da criança:
menino ou menina, a experiência,
é viver o teatro
da sobrevivência...
Não me chamo Isabela...
nem fui morta (ainda)
por meu pai ou madastra...
mas morro um pouco,
a cada dia,
quando sou espancada.
E morro também,
assim, engasgada,
obrigada a me calar
quando tenho mãos sobre mim...
nem sempre a me sufocar,
mas explorando,
de um jeito esquisito,
que nem entendo direito,
o meu corpo sem contornos...
Meu nome, não é Isabela...
Não tenho cabelos lisos,
nem tenho olhinhos espertos...
Ao contrário: meus olhos são opacos,
talvez, por não querer enxergar
minha dura realidade...
Também não faço teatros,
lá no palco da escolinha
... isso não é para mim...
Quando vou à escola,
é somente pra comer
a merenda que me dão...
pois muitas vezes, em casa,
não temos sequer o pão...
O máximo que sei é correr:
morro abaixo, morro acima,
entre os carros dos sinais...
para ganhar um trocado,
ou para fugir dos adultos,
que insistem em me machucar...
Eu não me chamo Isabela...
mas, como ela,
(ou até mais!)
eu sofro... e diariamente...
Tenho marcas de pancadas,
queimaduras de cigarros,
tenho ossos fraturados,
boca sangrando, hematomas,
que mãos e pés gigantescos
me provocam sem motivo...
Não morri, como Isabela...
Ainda não... mas irmãos,
amiguinhos, conhecidos,
eu sempre vejo morrer...
Quem matou? Nunca se sabe...
"ele caiu", "tropeçou"
"queimou-se por acidente"
"estrupada?", "coitadinha"...
"não fui eu", diz o padrasto,
"nem eu", diz a mãe omissa...
e eles não têm nem quem reze
para eles, uma missa...
Eu não me chamo Isabela...
sou Maria, Rita, João...
Sou Josefina, sou Mirtes,
sou Paulo, Sebastião...
Sou tantas, tantas crianças,
que todo dia a omissão
de todos deixa morrer...
Engraçado é que ninguém,
faz passeata por mim
a imprensa não divulga,
o "figurão" não se importa,
a classe média não grita,
os ricaços dão de ombros...
Que hipocrisia é essa,
de chorar por uma só?
São tantas as Isabelas
violentadas sem dó...
Mas que importam
os escombros,
a escória da sociedade?
Se não me chamo Isabela,
não mereço piedade.
Que o triste caso da pequena Isabela, sirva pra que abramos os olhos para o que acontece, todos os dias, com as nossas crianças..."
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Quero lembrar aqui também do ECA, acesse-o aqui no blog (coluna da direita)! Tem uma relação com a poesia apresentada acima!
"É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor." (Artigo 18 do ECA-Estatuto da Criança e do Adolescente)
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Oração com olhos e ouvidos atentos
Diante disso, podemos pensar numa oração diaconal, ou seja, uma oração vivenciada no serviço ao próximo, ao necessitado, ao pobre. Para isso, devemos estar atentos a uma educação de nossos sentidos em relação àquele que necessita. É comum orarmos de olhos fechados (sem nenhuma justificativa clara, bíblica ou teológica). Entretanto, a oração no contexto da missão integral deve ser feita de olhos e ouvidos bem abertos.
O profeta Habacuque tinha os ouvidos atentos ao sofrimento alheio. Seu livro é um diário de oração, em que registra suas inquietações diante da violência e injustiça causadas pelo avanço bélico do império babilônico. Interessante é a “canção de zombaria” (2: 6-20) dos povos atacados pela Babilônia e que “um dia ririam” de seu opressor. As exclamações, os cinco ais, do livro são imprecações que não eram raras na Antigüidade, expressando desprezo e desejo de vingança em relação àquele que trazia guerra, violência, dor e destruição. Podemos fazer uma pequena digressão para observar que por trás dos ais “prometidos” aos babilônios havia, primeiramente, os ais dos povos oprimidos que sofriam os ataques da guerra.
É necessário, portanto, educar nossos ouvidos para perceber os gritos de violência e injustiça sofridas, muitas vezes diariamente, sem, no entanto, haver uma guerra iminente, como era no contexto do profeta Habacuque. Esse tipo de percepção deve preencher nossa vida de oração, como uma atitude profética.
Já, Amós, o vaqueiro-profeta de Tecoa, não acreditava no que via, no sentido que ele foi despertado para exercer sua vocação a partir de seu olhar, daquilo que estava diante de seus olhos, diariamente. Ele vivia cuidando de rebanhos e de figueiras bravas (7: 4-15) e foi nesse contexto, e não em escolas de profetas, que Deus lhe abriu os olhos para as injustiças e desobediências das nações ao seu redor, inclusive Judá e Israel.
Aqui, temos é uma exortação para que abramos os olhos, de forma profética, diante de nossa realidade, da realidade brasileira, no nosso entorno próximo, seja em nossa vizinhança, seja na universidade, na comunidade eclesiástica, na cidade, no estado, na região, no país, na América Latina, no mundo globalizado.
Com olhos e ouvidos atentos ao próximo e a nosso contexto, nossas orações convidarão o Reino de Deus (Venha o teu Reino!) para perto, encontraremos, Jesus no outro e atuaremos como profetas denunciando injustiças e anunciando as Boas Novas.
Rodolfo Silva
Acessor de Diaconia da ABUB