segunda-feira, 1 de março de 2010

Ser bíblico: uma agenda para o coletivo

N’O Novo Rosto da Missão, livro escrito por Luiz Longuini Neto, encontrei interessantes citações do livro Fé Bíblica e Crise Brasileira, de Paul Freston. O capítulo do livro de Longuini, no qual li as citações de Freston, trata do significado de evangelical e movimento evangelical, recorrendo à história e à teologia para esboçar suas definições. Os trechos de Paul Freston que me chamaram atenção são interessantes, porque relacionam o indivíduo, a comunidade na qual ele se insere e a fé que ele pratica, de uma forma crítica e, ao mesmo tempo, propositiva.

Seguem os trechos:


“Nas nossas comunidades evangélicas valoriza-se, e com razão, o ser bíblico. Na prática, esse atributo funciona de uma forma estranha. Ele é visto como uma posse da comunidade, da qual alguns talvez queiram divergir. Para evitar que isso ocorra as fronteiras são vigiadas... O ser bíblico como uma posse nossa torna esse conceito essencialmente negativo e limitante... Ser bíblico, pelo contrário, deveria ser visto não como uma posse, mas como uma agenda. Uma agenda positiva... Não é uma insígnia que ostentamos, mas uma aspiração piedosa de nossa alma e nossa mente... Se, em nível pessoal, ser bíblico é uma aspiração que sempre se realiza imperfeitamente, o mesmo vale em nível comunitário... Dessa forma, ser evangélico, na prática, equivale a inserir-se dentro de uma determinada tradição, definida como evangélica. Ser evangélico, nesse sentido, deveria significar ser radicalmente bíblico.”[1]

“Quais as implicações do desejo de ser radicalmente bíblico para nosso uso da Bíblia como indivíduos e como comunidades?... Em primeiro lugar, ao invés de fetichizar a Bíblia, honrando-a como símbolo, temos que levá-la a sério, por meio de um trabalho árduo de interpretação e aplicação. Levar a Bíblia a sério nas suas duas dimensões: i) como livro humano, produto histórico e cultural que participa do grande princípio cristão da encarnação, e que por isso exige a aquisição de uma certa cultura bíblica (pelo menos compatível com o nosso nível de cultura geral) e exige que façamos a ponte com o nosso contexto (a contextualização não é um adendo opcional, mas é parte integral da tarefa de ser bíblico; não se pode ser bíblico apenas estudando a Bíblia!); e ii) como livro divino, normativo, que exige a meditação séria e a obediência criativa.”[2]

NOTAS:
[1] LONGUINI NETO, Luiz. O novo rosto da missão: os movimentos ecumênico e evangelical no protestantismo latino-americano. Viçosa: Ultimato, 2002, pp. 25-26.
[2] Idem, p. 26.

Um comentário:

Ana Flávia disse...

Muito construtivo!
=)