"A violência que alcança os jovens negros e pobres nas periferias brasileiras
não se encerra no homicídio. É um caminho de rastro doloroso, q passa pela
humilhação, a supressão de direitos, o abuso, o assédio e quiçá o estupro
das jovens mais belas, o abuso de poder, o distanciamento dos canais de
direito e reivindicação e outros... A violência física mata e marca. A violência
simbólica oprime. As energias gastas para enfrentar uma, não pode nos
distrair para a exigência do enfrentamento da outra." (Ronilso Pacheco)
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
domingo, 21 de julho de 2013
É preciso vandalizar as igrejas
Por Ronilso Pacheco na Novos Diálogos.
Vandalismos são uma afronta ao estado democrático de Direito.
Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro
O direito não é a Justiça.
Jacques Derrida, filósofo francês
Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro
O direito não é a Justiça.
Jacques Derrida, filósofo francês
Não obstante as duas epígrafes acima, eu inicio este texto com uma
citação do performático filósofo esloveno Slavoj Žižek, contida nas
primeiras páginas de seu livro A Marioneta e o Anão:
No quadro desta nova ordem mundial, há dois papéis
possíveis para ela [a religião, aqui substituída pela Igreja e sua
atuação]: Terapêutico ou Crítico – ou ajuda os indivíduos a funcionarem
cada vez melhor na ordem existente, ou procura afirmar-se como instância
crítica e dizer o que está errado nessa ordem como tal, ou seja,
enquanto espaço aberto às vozes contestatárias.
Um “desejo de paz” invade as igrejas. Instituições que “ensaiaram”
uma presença nas manifestações, as igrejas passaram a “fazer a
diferença” pedindo manifestações pacíficas, assustadas com o grau de
radicalidade em alguns atos. E em diversas igrejas evangélicas que se
propuseram a discutir o efeito manifestações (pouquíssimas), a discussão
sobre a legitimidade e relevância das manifestações perdeu espaço para a
legitimidade e a possibilidade de haver algum “componente cristão” na
“violência” e no “vandalismo” aplicado aos patrimônios públicos e
privados das cidades por alguns.
Mais do que nunca, uma dificuldade são as definições. Concordo com
Gastón Bachelard, que dizia, com sua sabedoria profética, que conceitos são como gavetas.
De fato, se tudo o que temos são categorias e conceitos estabelecidos
de cima pra baixo, com a perspectiva propositiva única a partir do poder
e do Estado, então a única maneira de abordar e interpretar os
acontecimentos atuais, bem como a leitura que fazemos dos sujeitos desta
ação e o olhar que temos sobre nós mesmos, tem exatamente essa
construção que parte do poder e do Estado como referência definidora.
Estamos nós engavetados, e todas as nossas narrativas (discurso,
justificativas, acusações, defesas, comentários) partem deste lugar, que
não é o lugar de todos, e provavelmente não pode servir para falar de
todos.
Portanto é preciso também subverter a linguagem, e todo o seu
corolário (os conceitos, as categorias, as etimologias, as raízes e os
enraizamentos, as metáforas...). É preciso in-verter o caminho da
interpretação e romper a posse, a cooptação, o enquadramento, a
tematização, este terror temido por Levinas (“a tematização não é a paz com o Outro, mas a supressão ou posse do outro"),
que é despejada e assimilada, como armadilhas que capturam presas (e
nós precisamos decidir onde “nos encaixamos”: vândalos, baderneiros,
arruaceiros, pacíficos, exaltados, truculentos, violentos, que mais?).
Nossas igrejas deveriam ser lugares de ressignificação, lugares por
excelência da recepção crítica das categorias de avaliação e leitura da
realidade social (cada vez mais capitalizada). O exemplo de Jesus é o da
ressignificação, da (re)conceitualização — que desconstrói a vigente e
torna outra a ser pensada — que re-(i)nova o entendimento. Ao próximo
(entendido como o parente, judeus entre judeus, fariseus entre
fariseus, um de nós) ele amplia o sentido e inclui o Outro, o
“distante”. A famosa parábola do samaritano mostra que o próximo
pode ser o diferente, não tematizado por sua origem, mas acolhido por
sua necessidade. É provável que Jesus tivesse outra ideia de violência
na cabeça quando foi tão agressivo em seu zelo com o templo. Sábio, ele
já devia saber que a violência é uma palavra tão polissêmica, que só
mesmo a “colonização” do termo por um grupo ou alguns setores, poderia
justificá-la como sendo apenas reconhecida como tal (a agressão e
destruição deliberadas pura e simplesmente) em uma determinada situação,
e nunca em outras.
Então talvez seja preciso “vandalizar as nossas igrejas”, eu diria. É
preciso vandalizar as interpretações costumeiras, hermenêuticas
desconectadas com a realidade, ou, com a ordem existente, para
voltar a Žižek; é preciso vandalizar os espaços vazios dos sermões
apagados, que tornam a desigualdade social invisível aos olhos dos
crentes ouvintes; vandalizar o patrimônio da instituição da “verdade”,
que nega o direito à existência do outro e do seu reconhecimento como
sujeitos a serem contemplados na esfera pública; vandalizar os caminhos
que dizem levar a Deus, sem passar pelo sofrimento e a dor do Outro;
vandalizar o silêncio dos que pregam a paz, demonizando o conflito.
Temos igrejas mornas, em tempos quentes. Compramos a cartilha do Estado
Democrático de Direito, mesmo sabendo que este Estado Democrático de
Direito não garante, por si só, a manutenção da justiça e dos direito
sociais, e é, reconhecidamente, incapaz por si só de contemplar a
dinâmica das demandas da vida cotidiana dessa mesma esfera pública.
Não é o caso de defender a violência e o vandalismo. Ou é, se a única
definição possível não for a que temos, a que nos deram ou a que
herdamos. Eu apenas perguntaria se o “bem aventurados os pacificadores”
permite apenas uma hermenêutica que nos deixe tão mais próximo da apatia
política, da postura acrítica e da “bem comportada” manifestação em
defesa da paz (apenas uma marcha talvez) ou também há espaço para
aqueles que se colocam à disposição das tensões sociais em tempos de
crise, de exacerbação dos que têm a legitimidade da força e da
violência, e de surdez do poder. “Ouça o Espírito, ouça o mundo”, diria o
saudoso John Stott. Eu apenas destrincharia: ouça os pobres, ouça as
periferias, ouça os jovens negros exterminados cotidianamente, ouça o
estado de exceção nas comunidades “pacificadas”, ouça as remoções
ilegais em benefício do mercado e dos poderosos, ouça a indiferença do
poder público com os desabrigados nas tragédias naturais, ouça a
invisibilidade dos que morrem na favela, ouça o clamor por saneamento
básico e dignidade reconhecida. É preciso vandalizar as igrejas, seja lá
o que isso signifique.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Levante sua voz contra a violência do Estado no Complexo da Maré...
Carta Pastoral da REDE FALE sobre o ocorrido na Maré
Fale – Levante sua voz contra a violência do Estado no Complexo da Maré e em tantas outras periferias do Brasil!

Na última segunda-feira dia 24 de junho, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, com seu Batalhão de Operações Especiais (o famoso Bope), tomou a Favela Nova Holanda, no complexo da Maré, em retaliação à morte de um policial militar em confronto naquele dia. A ação deixou nove mortos e está sendo acusada de falta de planejamento, de ser motivada por vingança e de utilizar força desmedida. Há testemunhos de humilhação e intimidação de moradores e também de execuções sumárias. Ainda hoje, a favela permaneceu tomada pela PM, em um verdadeiro exercício de estado de sítio sob suas/seus moradoras/es, ameaçando seu direito à justiça, à liberdade e à dignidade.
Na Bíblia, o livro de Isaías é abundante sobre as reivindicações por justiça: "O fruto da justiça será paz; o resultado da justiça será tranquilidade e confiança para sempre" (Isaías 32:17). Dentre os efeitos do alcance da justiça, estão a paz, a tranquilidade, a confiança e o direito à vida: "Não mais haverá na cidade criança que viva poucos dias, nem idoso que não complete seus anos de idade." (Isaías 65:20a).
Aplicando os princípios bíblicos à realidade fluminense e brasileira, podemos concluir que se as injustiças são causadoras da insegurança vivida pelo povo, então, toda ação (seja ela do Estado ou da sociedade civil organizada) que pretenda agir sobre a “segurança” da população sem mexer nas estruturas sociais e raciais injustas é uma medida equivocada. O profeta Isaías nos adverte ainda: “Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo” (Isaías 10:1-2).
Ainda em Isaías, temos também um apontamento das causas das injustiças e desigualdades sociorraciais, em forma de denúncia à concentração de terras por parte de determinado grupo: "Ai de vocês que adquirem casas e mais casas, propriedades e mais propriedades, até não haver mais lugar para ninguém e vocês se tornarem os senhores absolutos da terra!" (Isaías 5:8).
O direito à moradia e o direito à vida têm sido violentados diariamente na cidade do Rio de Janeiro e em outras cidades do Brasil. O Estado brasileiro é responsável por garantir direitos. Cada vez que o poder público autoriza uma invasão policial desse tipo põe em risco a vida de milhares de pessoas moradoras das favelas. Desta forma, o Estado autoriza assim a negação de direitos e por isso deve também ser responsabilizado.
O que vimos acontecer no Complexo da Maré, na cidade do Rio de Janeiro, neste começo de semana é a repetição e continuação de uma série de violações de direitos a que as populações pobres da cidade passam todos os dias. Tais direitos são zelados e reivindicados pela própria Bíblia, que pede o compromisso e a manifestação pela defesa dos mesmos daqueles que a tomam como regra de fé e prática!
Se você é cristã(o) e cidadã(o), não deixe de manter-se informado, de orar e de agir para que todas as pessoas, sobretudo as/os pobres, as/os pretas/os e moradoras/res das favelas (alvos preferenciais da violência estatal), tenham vida e vida em abundância, a começar pela garantia dos direitos à moradia , à vida, a ir e vir e a manifestar-se publicamente.
Rio de Janeiro, 25 de junho de 2013
Rede Fale

Na última segunda-feira dia 24 de junho, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, com seu Batalhão de Operações Especiais (o famoso Bope), tomou a Favela Nova Holanda, no complexo da Maré, em retaliação à morte de um policial militar em confronto naquele dia. A ação deixou nove mortos e está sendo acusada de falta de planejamento, de ser motivada por vingança e de utilizar força desmedida. Há testemunhos de humilhação e intimidação de moradores e também de execuções sumárias. Ainda hoje, a favela permaneceu tomada pela PM, em um verdadeiro exercício de estado de sítio sob suas/seus moradoras/es, ameaçando seu direito à justiça, à liberdade e à dignidade.
Aplicando os princípios bíblicos à realidade fluminense e brasileira, podemos concluir que se as injustiças são causadoras da insegurança vivida pelo povo, então, toda ação (seja ela do Estado ou da sociedade civil organizada) que pretenda agir sobre a “segurança” da população sem mexer nas estruturas sociais e raciais injustas é uma medida equivocada. O profeta Isaías nos adverte ainda: “Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo” (Isaías 10:1-2).
O direito à moradia e o direito à vida têm sido violentados diariamente na cidade do Rio de Janeiro e em outras cidades do Brasil. O Estado brasileiro é responsável por garantir direitos. Cada vez que o poder público autoriza uma invasão policial desse tipo põe em risco a vida de milhares de pessoas moradoras das favelas. Desta forma, o Estado autoriza assim a negação de direitos e por isso deve também ser responsabilizado.
Se você é cristã(o) e cidadã(o), não deixe de manter-se informado, de orar e de agir para que todas as pessoas, sobretudo as/os pobres, as/os pretas/os e moradoras/res das favelas (alvos preferenciais da violência estatal), tenham vida e vida em abundância, a começar pela garantia dos direitos à moradia , à vida, a ir e vir e a manifestar-se publicamente.
Rio de Janeiro, 25 de junho de 2013
Rede Fale
Ocupar a saúde
[pensando alto]
O "movimento dos ocupas" (Occupy Wall Street, Occupy All Streets, Ocupa Rio, Occupy the Church e outros...) tem muito a nos ensinar, sobretudo metafórica ou simbolicamente. Fico pensando o quanto precisamos ainda "ocupar a saúde", sobretudo "ocupar a medicina" e mais especificamente "ocupar o poder médico". Chega de "representação", de médicos com um "mandato" distante da população. Está na hora de uma "prestação de contas" mais horizontal e coletiva. Está na hora de uma "saúde" menos segregada e segregadora.
O "movimento dos ocupas" (Occupy Wall Street, Occupy All Streets, Ocupa Rio, Occupy the Church e outros...) tem muito a nos ensinar, sobretudo metafórica ou simbolicamente. Fico pensando o quanto precisamos ainda "ocupar a saúde", sobretudo "ocupar a medicina" e mais especificamente "ocupar o poder médico". Chega de "representação", de médicos com um "mandato" distante da população. Está na hora de uma "prestação de contas" mais horizontal e coletiva. Está na hora de uma "saúde" menos segregada e segregadora.
Assinar:
Postagens (Atom)