Como pregar o evangelho sem importar-se com a miséria do faminto, do sem teto, ou sem confrontar-se com as estruturas corrompidas da sociedade?" (Pr. Marcos Vichi)
Sempre me inquietei com o tema da justiça.Mais do que um tema, a prática da justiça frente às situações de injustiça era para mim um problema mesmo: “o que fazer?” e “como fazer?”. Durante muito tempo (a adolescência e início de juventude me parecem, ainda, ter durado um longo tempo), eu procurava chamar meus irmãos da igreja local a algumas pequenas reflexões, pequenas ações ou atitudes que pudessem transformar, de alguma forma, a vida das pessoas que estavam em situação de abandono ou que haviam sofrido algum tipo de violência.
De lá pra cá, foram várias atividades de visitação a abrigos e asilos e alguns pequenos ciclos de debates sobre problemas como violência urbana e desigualdade de acesso e posse da terra (para dela trabalhar e viver). Tudo isso ocorreu na igreja local. Minhas ações, em geral, se limitavam à realidade e aos recursos que a igreja local me fornecia.
Alguns anos se passaram, e eu permanecia acreditando nas pequenas mudanças, nas pequenas transformações que o Evangelho (em forma de alimento espiritual e físico) podia causar na vida das pessoas. No entanto, uma inquietação sempre me acompanhou: eu me via agindo sempre sobre efeitos da violência e da injustiça, tentando remediar micro-problemas, enquanto as estruturas da sociedade permaneciam não questionadas e inquestionáveis. Uma convicção passou a me acompanhar: era preciso, de alguma forma, articular as pequenas ações por justiça na vida das pessoas à minha volta com ações que incidissem sobre “o todo” da sociedade na qual eu vivia. Quem me ajudou nesse processo de pensar e agir para além da “realidade local” foi a ABU.
Se fosse resumir o que trabalhar com evangelização de estudantes com a ABU me ensinou em termos de ação sobre a coletividade, diria o seguinte:
1) A ABU me fez caminhar espiritualmente e trabalhar na Missão junto com pessoas de outras igrejas: me fazendo reconhecer as várias possibilidades de atuação das igrejas locais, das mais diversas denominações. 2) A ABU me fez contornar aquelas possíveis diferenças entre mim e os outros crentes: deixando de lado detalhes de doutrina, pude me ater ao mais essencial junto aos colegas da universidade para realizar um objetivo comum. 3) A ABU me apontou um caminho de articulação com outras organizações (como Rede Fale e Rede Evangélica Nacional de Ação Social [RENAS]), me abrindo, assim, cada vez mais o leque de possibilidades de articulações e parcerias na hora de realizar o trabalho missionário.
A ABU me trouxe novos conhecimentos: novas práticas de ação social e política estavam agora à minha disposição. Comecei a colaborar com a Rede Fale e com a RENAS, ajudando também a construir a RENAS-Jovem. De 2008 pra cá, foram campanhas locais e nacionais, encontros e reuniões, fóruns e seminários. Caminhar com movimentos e redes me vem me ensinando que é possível unir diferentes perspectivas de ação em torno de um objetivo comum: a promoção da Justiça do Reino de Deus.
Esse ano fui escolhido para representar a ABUB no Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE). A demanda é representá-los: aquilo que vocês sonham e pensam em termos de justiça e transformação social pode ser levantado como uma bandeira, uma voz nos grandes centros de decisão do país. Minha expectativa é a seguinte: que haja, entre mim e o movimento, uma troca substancial, uma parceria, uma cumplicidade. Que possamos agir e sonhar juntos. Espero que esse breve relato da minha caminhada possa abrir um canal entre nós e encurtar as distâncias de um país de proporções continentais como o Brasil.
*Esse texto foi escrito antes da minha ida ao Conjuve. Foi mais uma forma de expressar minhas expectativas para com o movimento do qual participo (ABUB).
Em meio à correria do trabalho pesado, não nos faltou tempo com as famílias para os deliciosos cafezinhos nos finais das tardes. Juntos trabalhamos, rimos e choramos.
Nos últimos vinte dias estive trabalhando na pequena Vieira, vila que pertence ao município de Teresópolis. Lá, mais de oitenta pessoas perderam suas vidas devido à volumosa chuva da madrugada do dia 11 de Janeiro. Quem não perdeu algum membro da família, perdeu no mínimo um grande amigo. A quase dois meses da tragédia, o Anderson chora o luto dos que se foram. Ele perdeu sua esposa e seu único filho, um lindo menino de cinco anos. O Djalma chora a morte do pai e irmãos, a Patrícia chora a perda de sua casa, construída com o suor do trabalho duro na lavoura. O Zé chora a perda das cebolinhas que estavam prontas para serem colhidas, elas alimentariam as famílias da cidade grande, e o que sobraria do fracionado lucro o sustentaria por algum tempo. A Ângela chora porque o governo não tardou em desanimá-la, depois de idas e vindas à Caixa, o aluguel social ainda não está disponível. Outro dia ela assistiu uma reportagem sobre os desabrigados de Santa Catarina, que três anos após a tragédia, alguns dos de lá continuam morando em barracas “provisórias”.
Há uns “portadores da verdade” que sobem a Serra com seus carros e caminhões carregados de donativos, interesses e arrogância, que dizem para os Vieirenses: Deus está julgando a Serra, vocês precisam se voltar para Jesus... O Anderson não consegue entender porque que o Deus que ele pensava ser amoroso e misericordioso matou seu filho e esposa.As poucas palavras que sai de sua boca são: Eu não estou entendendo, mas Deus sabe o que faz!
Deus realmente sabe, Ele sabe por que boa parte das pessoas que estão nos abrigos são pobres e negras, Ele sabe!
Nossa fé animista não consola o Anderson e nem confronta as repetidas injustiças. No curto prazo, nossos caminhões e voluntários subiram a Serra, uns com boa vontade, outros com arrogância e respostas prontas, usando a situação de destruição e luto como estratégia para podermos empurrar nossa estranha visão sobre o causo.
Amanha faz dois meses do acontecido. O cenário mudou completamente, as necessidades são outras. A grande maioria das pessoas já não precisa mais de roupas, água ou sextas básicas. O momento é de reconstrução. Reconstrução da casa da Patrícia, reconstrução do relacionamento entre o Anderson e seu “des-graçado” Deus. É momento de cobrarmos dos que prometeram, é momento de expressarmos o amor e a verdadeira graça do Deus que é Pai e amigo do Anderson, da Patrícia, Ângela, Djalma, Zé...
CONSIDERAÇÕES SOBRE FILOSOFIA, CIDADANIA E MEIO AMBIENTE
[Mantive aqui o caráter de oralidade do texto, quando de sua apresentação no XIV Encontro Estadual de Professores de Filosofia/2010]
PEDRO FORNACIARI GRABOIS
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Resumo: Nossa comunicação tem por objetivo apontar, a partir do entrecruzamento de diversos temas como ensino de filosofia, cidadania e meio ambiente, a possibilidade de pensar não só uma relação da sala de aula com a militância das organizações sociais, mas fazer da própria sala de aula um espaço de militância social e política em prol de uma sociedade mais justa e igualitária no que diz respeito ao acesso a saneamento ambiental e à posse da terra.
Palavras-chave: filosofia, cidadania, meio ambiente
Para a criança de cinco anos, arte é vida e vida é arte. A experiência, para ela, é um fluido caleidoscópico e sinestésico. Observem crianças brincando e tentem delimitar suas atividades pelas categorias das formas de arte conhecidas. Impossível. Porém, assim que essas crianças entram na escola, arte torna-se arte e vida torna-se vida. Aí elas vão descobrir que “música” é algo que acontece durante uma pequena porção de tempo às quintas-feiras pela manhã enquanto às sextas-feiras à tarde há outra pequena porção chamada “pintura”. Considero que essa fragmentação do sensorium total seja a mais traumática experiência na vida da criança pequena. (SCHAFER; 1991, p. 290, grifo do autor)
O trecho que acabo de ler é do livro O ouvido pensante de Murray Schafer, músico e educador canadense, preocupado em pensar a educação musical de modo integrado à vida e à paisagem sonora que compõem a sociedade contemporânea e que cercam tanto o indivíduo que faz música profissionalmente quanto o que não faz. Não me aprofundarei nas discussões próprias a esse universo (o da música), apenas as tomei para ilustrar algo do que quero tratar aqui brevemente: a prática filosófica vivenciada na cidadania e integrada a um compromisso com o meio ambiente e com as pessoas que nele vivem. Ao final do texto, retornarei a essa citação do livro O ouvido pensante.
Em primeiro lugar, a relação entre filosofia e cidadania. A Lei de Diretrizes e Bases para a educação nacional (LDB 9394/96) atribui ao Ensino Médio “a preparação básica para a cidadania” e vincula ao exercício desta cidadania o domínio dos conhecimentos de Filosofia e de Sociologia. José Pacheco, em um de seus livros, nos fala sobre a diferença entre “educar para a cidadania” e “educar na cidadania”:
leio em manuais escolares a expressão “educar para a cidadania”. Se bem entendo o sentido da frase, tratar-se-á de moldar o indivíduo numa lógica de seqüencialidade regressiva, treinando-o, agora, para um posterior desempenho social que se crê, por sua vez, ajustado a um determinado modelo de sociedade futura. Exatamente no estilo do faz-de-conta-que-já-somos-para-sermos-quando-formos, que acaba sendo um exercício, que é fim em si próprio. (PACHECO, 2006, p. 46)
A crítica de Pacheco à perspectiva da “educação para a cidadania” segue: “onde estão os espaços de uma liberdade responsável? Se nem os professores a exercem, como poderão ensiná-la?” (ibidem, p. 47). Ele denuncia ainda, em sua crônica, que em aulas caracterizadas pela passividade nas universidades se ensinem “métodos ativos” e fala da inutilidade de tentar ensinar cidadania em aulas expositivas a partir da análise de dilemas ou através de discursos de “moralidade duvidosa e eficácia nula”. Denuncia ainda as escolas nas quais tudo é negação da cidadania. Pacheco defende, em primeiro lugar, que o estudante precisa ter voz ativa, sem que por isso deixe de ser portador de um estatuto próprio, o de estudante, que é bem diferente do de professor. Pacheco pede que os professores reconheçam que há outros para além de si mesmos. A crítica de José Pacheco se aproxima muito da de Paulo Freire, quando denunciava o uso da concepção “bancária” da educação – aquela que se pauta pela transmissão de conhecimentos aos educandos – por aqueles que se pretendem defensores da causa da libertação (FREIRE, 2005, p. 71-78). Essa contradição que tanto Pacheco quanto Freire denunciam parece por nós, estudantes e professores de filosofia, reforçada diariamente, consciente ou inconscientemente. Essa contradição parece também ser referendada pela concepção de educação que lemos na LDB quando trata do domínio de conhecimentos para exercer uma cidadania futura. Acreditamos que seja preciso defender a filosofia enquanto experiência, enquanto experiência que vá além da aula expositiva, que vá além da sala de aula, que vá além da aula de filosofia. A filosofia enquanto disciplina, hoje obrigatória no ensino médio graças a diversas lutas e conquista da qual não podemos abrir mão, precisa se articular com a realidade concreta do cotidiano escolar e com a realidade concreta dos estudantes, realidade que se vê pouco contemplada nos programas de diversas escolas.
Assim, a ilustração do início de nossa fala pode ser retomada e aplicada à filosofia em sua relação com a cidadania. A aula de filosofia não pode conter o que pretendemos fazer quando nossa proposta é educar na cidadania, a experiência filosófica cidadã não acaba quando o sinal toca. Há um problema no sistema que diz que é atribuição apenas de determinadas disciplinas, ou que determinadas disciplinas têm um peso maior em transmitir uma suposta cidadania aos alunos. Nossa meta é ir além da disciplinaridade, é estabelecer uma ponte entre o que abordamos e vivenciamos na sala de aula com tudo aquilo que nos atravessa social, política, econômica e afetivamente. Na verdade, esta ordem pode e deve ser inversa: aquilo que nos atravessa cotidianamente tem primado sobre nosso esforço de um fazer filosófico. Ainda assim, o espaço da disciplina de filosofia, o espaço da sala de aula é bastante precioso e quando o temos em nossas mãos, não podemos colocar tudo a perder. Faz-se necessário compartilhar nossa experiência e vontade de fazer filosofia com os estudantes e precisamos fazer isso de modo coerente com a prática cidadã que queremos construir coletivamente: em primeiro lugar dando voz a eles, reconhecendo a necessidade do diálogo, que começa com o reconhecimento do outro enquanto sujeito ético e político ativo.
Ainda pretendemos vincular tal tematização da filosofia em sua relação com o exercício da cidadania ao tema do meio ambiente, que compõe o tema de todo esse encontro de educadores. A partir de nossa vivência e envolvimento com organizações sociais comprometidas com a transformação de situações de injustiça no Brasil através de campanhas de conscientização e mobilização locais e envolvimento em processos de construção de políticas públicas de alcance nacional, aprendemos sobre meio ambiente e saneamento ambiental algumas importantes lições. Segundo o Instituto Trata Brasil, no país, “mais de 100 milhões de brasileiros não dispõem de rede de coleta de esgoto sanitário e 18 milhões não têm sequer banheiro em casa. Todos os dias, sete crianças brasileiras morrem em consequência da falta de saneamento” [1]. Afirmamos, junto com a Rede Fale, que não pode haver “meio ambiente saudável enquanto persistir tamanha desigualdade social” [2]. Um interessante conceito de saúde pode também dar o norte de que precisamos: "Saúde é a resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso a serviços de saúde." (MINAYO, 1996). O acesso e a posse da terra para os trabalhadores rurais, a agricultura familiar, o paradigma da agricultura ecológica, a reforma agrária, todos esses são temas que ainda precisam ser muito explorados e desenvolvidos em um país como o nosso, que tem o latifúndio e a monocultura profundamente enraizados em sua história. Assim, na medida em que focamos na saúde, no bem estar e nas condições de dignidade e justiça das pessoas é que pensamos e agimos nos problemas do meio ambiente que as cerca. Tal discussão pode nos levar muito longe. Na atualidade, autores como Luc Ferry, Félix Guattari, Bruno Latour, entre outros, se propuseram pensar a ecologia em suas articulações com a história, com a ciência, com a política, etc., oferecendo assim uma visão crítica desse recente campo de saber e prática. Há toda uma história ocidental das relações ser humano-natureza a ser aprendida e ensinada, sem falar nas perspectivas orientais que permanecem para nós ainda muito desconhecidas, muitas vezes por causa de uma insistente ignorância em relação ao assunto. Ferry, em A nova ordem ecológica, escreve sobre diferentes perspectivas que ao longo da história consideraram a própria natureza como sujeito de direitos, seu livro fornece interessantes informações e conduz boas discussões acerca da prática ecológica hoje. Usar os recursos que a Filosofia tem disponíveis, os conceitos, as noções, os métodos, a relação entre história e pensamento, as diferentes maneiras de abordar determinados temas – tudo isso pode ser de grande valia para a tematização do meio ambiente em sala de aula se somado àquilo que a vivência na militância social tem também a fornecer. Ainda assim, enfatizamos que não se pode apenas teorizar sobre as diferentes abordagens, sobre as diferentes relações entre meio ambiente e ser humano, natureza e sociedade, natureza e cultura, etc. É preciso que nossa problematização de tais relações nos leve à construção de uma agenda de modificação das estruturas injustas da sociedade ou à adesão a uma agenda já construída anteriormente. Defendemos, então, a possibilidade da filosofia tratar a questão ambiental ou sócio-ambiental não apenas como problema filosófico, mas também como problema propriamente político, que implique uma agenda prática, que envolva estudantes e professores no exercício de uma cidadania por uma justiça sempre em construção.
Com nossa fala, ainda que breve, nossa pretensão era mostrar que a partir do entrecruzamento de diversos temas como ensino de filosofia, cidadania e meio ambiente, é possível pensar não só uma relação da sala de aula com a militância nos movimentos sociais, mas fazer da própria sala de aula um espaço de militância social e política em prol de uma sociedade mais justa e igualitária no que diz respeito ao acesso a saneamento ambiental e ao acesso e à posse da terra. O ensino de Filosofia no Brasil é um instrumento poderoso para pensar a cidade como espaço de direitos, para pensar o direito à cidade, para pensar, ainda, as atuais relações entre cidade e campo. Reforçamos aqui nossa posição em defesa da sala de aula como espaço de problematização e de construção de agenda prática em torno da questão da participação política, da luta pela garantia da cidadania e da defesa de direitos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BRASIL - 8º CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE - Relatório Final. In: MINAYO, M. C. S. (org.) A Saúde em estado de choque. Rio de Janeiro, FASE, 1996, p. 117 - 128 (Anexo).
FERRY, L. Le nouvel ordre écologique: l’animal, l’arbre et l’homme. Paris: Éditions Grasset & Fasquelle, 1992.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.
GALLO, Sílvio (Coord.). Ética e cidadania: caminhos da filosofia: elementos para o ensino de filosofia. Ilustração de Alexandre J. de Moraes Assumpção. Campinas: Papirus Editora, 2003.
GUATTARI, F. Les trois écologies. Paris: Éditions Galilée, 1989.
LATOUR, B. Políticas da natureza: como fazer ciência na democracia. Trad. de Carlos Aurélio Mota de Souza. Bauru: EDUSC, 2004.
PACHECO, José. Para os filhos dos filhos dos nossos filhos. Campinas: Papirus, 2006.
SCHAFER, R. M. O ouvido pensante. Trad. de Marisa T. de O. Fonterrada; Magda R. G. da Silva; Maria Lúcia Pascoal. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1991.
SOLIS, Dirce Eleonora Nigro. Cidade e cidania. In: PEGORARO, Olinto A.; HÜHNE, Leda M. (Orgs.). Fazer Filosofia. Rio de Janeiro: UAPÊ, 1994, p. 170-211.